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Quarto Livro de Crónicas

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Este quarto livro de crónicas de António Lobo Antunes é uma selecção de 79 crónicas publicadas na revista Visão. Nestes pequenos textos, António Lobo Antunes evoca lugares, personagens, retratos do quotidiano e memórias de infância. Não morreste na cama mas morreste entre lençóis de metal horrivelmente amachucados na auto-estrada de Cascais para Lisboa e a gente ali, diante do teu caixão, tão tristes. Começa assim a quarta crónica deste livro e é um bom exemplo da intensidade dramática de alguns textos que sendo muito mais acessíveis ao público do que os seus romances não descuram uma forte componente literária. E com uma narrativa que nos surpreende sempre pela genialidade como junta as palavras para formar cada frase, António Lobo Antunes leva-nos da tristeza à alegria e arranca-nos sorrisos pela forma como se ri de si próprio e das pequenas fraquezas de cada um de nós e que "apanha" e retrata como ninguém.

283 pages, Kindle Edition

First published February 27, 2012

13 people are currently reading
105 people want to read

About the author

António Lobo Antunes

88 books1,046 followers
At the age of seven, António Lobo Antunes decided to be a writer but when he was 16, his father sent him to medical school - he is a psychiatrist. During this time he never stopped writing.
By the end of his education he had to join the Army, to take part in the war in Angola, from 1970 to 1973. It was there, in a military hospital, that he gained interest for the subjects of death and the other. The Angolan war for independence later became subject to many of his novels. He worked many months in Germany and Belgium.

In 1979, Lobo Antunes published his first novel - Memória de Elefante (Elephant's Memory), where he told the story of his separation. Due to the success of his first novel, Lobo Antunes decided to devote his evenings to writing. He has been practicing psychiatry all the time, though, mainly at the outpatient's unit at the Hospital Miguel Bombarda of Lisbon.

His style is considered to be very dense, heavily influenced by William Faulkner, James Joyce and Louis-Ferdinand Céline.
He has an extensive work, translated into several languages. Among the many awards he has received so far, in 2007 he received the Camões Award, the most prestigious Portuguese literary award.

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3 (2%)
1 star
1 (<1%)
Displaying 1 - 13 of 13 reviews
Profile Image for João Moura.
Author 4 books23 followers
March 6, 2013
Nutro carinho por este livro. Foi-me oferecido no meu fatídico aniversário por um amigo que me fez uma dedicatória 5*, bem melhor do que aquela que o próprio António Lobo Antunes me fez no dia seguinte (homem sem paciência para dedicatórias mas de simpatia enorme).

Li-o com sentimentos cruzados. Com prazer por ser uma escrita diferente do habitual, graciosa, onde as memórias se cruzam com a realidade e os objectos e visões se diluem em pensamentos. Muitas vidas cabem dentro da escrita de ALB e ele próprio se torna pequeno para tamanha imensidão.

Se por um lado te é prazerosa a leitura, por outro se torna dolorosa, pois ficas com a ideia que daqui a algumas décadas vais tornar-te no homem que lês: um homem consciente em demasia do peso da vida, rendido a lembrar-se de alegrias passadas e de momentos irrepetíveis. Ignorância é uma benção, e ALB não foi prendado com esse analségico.
Para quem quiser aprender a escrever, este livro é uma boa referência, mas isso também pode ser penoso, ao ver tanto talento condensado em ALB.

Aconselham-se pausas de dias entre crónicas: como estão em grande número é melhor ler com calma e apreciar do que ter pressa para chegar ao fim - afinal de contas aqui não há princípio, meio ou fim, são todos pequenos azulejos de vidas.
Profile Image for Rosa Ramôa.
1,570 reviews85 followers
December 8, 2014
http://youtu.be/y1U7mLyF1p4

Juro que não vou esquecer...

Nunca vou esquecer o olhar da rapariga que espera o tratamento de radioterapia. Sentada numa das cadeiras de plástico, o homem que a acompanha (o pai?) coloca-lhe uma almofada na nuca para ela encostar a cabeça à parede e assim fica, magra, imóvel, calada, com os olhos a gritarem o que ninguém ouve. O homem tira o lenço do bolso, passa-lho devagarinho na cara e os seus olhos gritam também: na sala onde tanta gente aguarda lá fora, algumas vindas de longe, de terras do Alentejo quase na fronteira, desembarcam pessoas de maca, um senhor idoso de fato completo, botão do colarinho abotoado, sem gravata, a mesma nódoa sempre na manga (a nódoa grita) caminhando devagarinho para o balcão numa dignidade de príncipe. É pobre, vê-se que é pobre, não existe um único osso que não lhe fure a pele, entende-se o sofrimento nos traços impassíveis e não grita com os olhos porque não tem olhos já, tem no lugar deles a mesma pele esverdeada que os ossos furam, a mão esquelética consegue puxar da algibeira o cartãozinho onde lhe marcam as sessões. Mulheres com lenços a cobrirem a ausência de cabelo, outras de perucas patéticas que não ligam com as feições nem aderem ao crânio, lhes flutuam em torno. E a imensa solidão de todos eles. À entrada do corredor, no espaço entre duas portas, uma africana de óculos chora sem ruído, metendo os polegares por baixo das lentes a secar as pálpebras. Chora sem ruído e sem um músculo que estremeça sequer, apagando-se a si mesma com o verniz estalado das unhas. Um sujeito de pé com um saco de plástico. Um outro a arrastar uma das pernas. A chuva incessante contra as janelas enormes. Plantas em vasos. Revistas que as pessoas não lêem. E eu, cheio de vergonha de ser eu, a pensar faltam-me duas sessões, eles morrem e eu fico vivo, graças a Deus sofri de uma coisa sem importância, estou aqui para um tratamento preventivo, dizem-me que me curei, fico vivo, daqui a pouco tudo isto não passou de um pesadelo, uma irrealidade, fico vivo, dentro de mim estas pessoas a doerem-me tanto, fico vivo como, a rapariga de cabeça encostada à parede não vê ninguém, os outros (nós) somos transparentes para ela, toda no interior do seu tormento, o homem poisa-lhe os dedos e ela não sente os dedos, fico vivo de que maneira, como, mudei tanto nestes últimos meses, os meus companheiros dão-me vontade de ajoelhar, não os mereço da mesma forma que eles não merecem isto, que estúpido perguntar
- Porquê ?
que estúpido indignar-me, zango-me com Deus, comigo, com a vida que tive, como pude ser tão desatento, tão arrogante, tão parvo, como pude queixar-me, gostava de ter os joelhos enormes de modo que coubessem no meu colo em vez das cadeiras de plástico
(não são de plástico, outra coisa qualquer, mais confortável, que não tenho tempo agora de pensar no que é)
isto que escrevo sai de mim como um vómito, tão depressa que a esferográfica não acompanha, perco imensas palavras, frases inteiras, emoções que me fogem, isto que escrevo não chega aos calcanhares do senhor idoso de fato completo
(aos quadradinhos, já gasto, já bom para deitar fora)
botão de colarinho abotoado, sem gravata e no entanto a gravata está lá, a gravata está lá, o que interessa a nódoa da manga
(a nódoa grita)
o que interessa que caminhe devagar para o balcão mal podendo consigo, doem-me os dedos da força que faço para escrever, não existe um único osso que não lhe fure a pele, entende-se o sofrimento nos traços impassíveis e não grita com os olhos porque não tem olhos já, tem no lugar deles a mesma pele esverdeada que os ossos furam e me observa por instantes, diga
- António
senhor, por favor diga
- António
chamo-me António, não tem importância nenhuma mas chamo-me António e não posso fazer nada por si, não posso fazer nada por ninguém, chamo-me António e não lhe chego aos calcanhares, sou mais pobre que você, falta-me a sua força e coragem, pegue-me antes você ao colo e garanta-me que não morre, não pode morrer, no caso de você morrer eu
No caso de você e da rapariga da almofada morrerem vou ter vergonha de estar vivo.

Profile Image for Carolina.
329 reviews
June 30, 2012
Há crónicas mesmo muito giras neste 4to livro de A. Lobo Antunes, de entre as quais destaco "Crónica descosida porque me comovi" , ou "Juro que nunca vou esquecer". Estão muito interessantes, vale a pena analisá-las!

Livro lido e analisado no âmbito da disciplina de Português
Profile Image for Tiago Ramos.
31 reviews1 follower
September 1, 2012
Nunca li um romance de António Lobo Antunes (alguém me sugere por onde começar?), porém sou há muitos anos fã das suas crónicas e este já é o seu quarto livro de crónicas que leio. Os temas são diversos. Quando biográficas, as crónicas dissertam sobretudo da sua maneira introspectiva de ser, da solidão, da morte, da escrita de livros (onde afirma sempre ser o seu maior medo, que a "fonte de onde escreve" seque) e também do período em que trabalhou como médico na Guerra. Quando ficção, fascina-me sempre a forma como escreve na primeira pessoa e a personagem é quase sempre feminina. O tom da escrita é sempre irónico, belíssimo e Lobo Antunes é dos poucos escritores que capta tão bem a essência do que é ser português, num rol de detalhes simples, mas que tão bem nos remete para a nossa portugalidade. Dá sempre prazer ler as suas crónicas.
Profile Image for Erwin Maack.
452 reviews17 followers
March 3, 2020
Alguém que escreve como respira. Naturalmente. Porém, parece emprestar lá do oriente a maneira que purifica, limpa, aclara e aquece.
“ ...quero um fio que me conduza ao centro da vida e trazer ao de cima tudo o que existe lá dentro, quero coração do mundo, não quero entreter os que compram...”
Profile Image for Cátia Biscaia.
154 reviews2 followers
September 8, 2025
4,5 ⭐

No seu "Quarto Livro de Crónicas", António Lobo Antunes reúne 79 textos originalmente publicados na revista Visão, traçando retratos delicados e, por vezes, dolorosos do quotidiano, da infância, de lugares e de pequenas cenas de vida que carregam uma intensidade dramática inesquecível.

O livro abre com uma crónica marcante:

“Não morreste na cama mas morreste entre lençóis de metal horrivelmente amachucados na auto-estrada de Cascais para Lisboa e a gente ali, diante do teu caixão, tão tristes.”

Para mim, serviu como convite ao universo onde a memória cruzada com o quotidiano transforma o banal em terreno emocional profundamente literário.

Foi uma leitura, profundamente, comovente. Cada frase parecia orbitar os meus próprios recantos interiores. Lobo Antunes tem uma das raras capacidades da escrita contemporânea:

“Tanto ruído no interior deste silêncio: são as vozes dos outros a falarem em mim, pessoas de quem gostei, pessoas que perdi, gente que tenho ainda.”

A sensibilidade que transparece destas crónicas é rara e desarmante. Há nelas um espelho sombrio e terno feito de palavras. Parecia que eu estava a ler os meus mais íntimos devaneios revelados com crueza e beleza. Surgem lágrimas, mas também risos... aquele rir suave que parte do entendimento da própria condição humana. É a grandeza de Lobo Antunes: revela-se com uma familiaridade que arrepia.

Só estou agradecida ao Universo por me ter feito cruzar com este livro. Obrigada, Universo.
Profile Image for Joana.
35 reviews1 follower
October 14, 2024
Uma coleção de textos breves que refletem sobre temas como a infância, memórias pessoais, o passar do tempo e a morte. Com um estilo intimista e irônico, o autor explora as complexidades da vida e das relações humanas através de pequenas observações do cotidiano.
421 reviews14 followers
December 26, 2023
Mais um belo conjunto de crónicas formidáveis, muitas das quais não tinham saído ainda em livro. Também este: indispensável!
60 reviews
August 4, 2024
Fenomenal como de costume. Admiro leio e releio as suas cronicas e nunca me canso.
Profile Image for Colin.
1,693 reviews1 follower
October 20, 2024
Que malandrice! Segundo o Goodreads o livro, tem 328 páginas mas o audiolivro não dura mais de uma hora! Então, não é a obra completa. Mas por outro lado, é um pouco deprimente e não preciso de mais!
Displaying 1 - 13 of 13 reviews

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