Com uma experiência de mais de cinqüenta anos de estudo das idéias marxistas, Leandro Konder se debruça neste livro sobre um dos conceitos mais importantes de Marx: a ideologia.
Nas últimas décadas, vem prevalecendo a convicção de que a questão da ideologia merece ser reaberta, considerando-se insatisfatória a solução encaminhada por Marx sobre o assunto. Konder retoma a questão para avaliar como a ideologia influi na construção do conhecimento e como essa distorção - inevitável, já que imposta pela divisão social do trabalho - poderia ser superada.
Em seu estudo, Konder dialoga com diversos pensadores que interpretaram o conceito marxista da ideologia: Lukács, Adorno, Gramsci, Benjamin, Marcuse, Bakhtin, Foucault, Bourdieu, Habermas, Jameson, além de brasileiros como Michael Löwy, Roberto Schwarz, Marilena Chaui e Sergio Paulo Rouanet.
Ao estabelecer relações entre ideologia, arte, política e vida cotidiana, o autor recorre a referências que vão do Marquês de Sade ao poeta Fernando Pessoa, passando por escritores e pensadores como Hegel, Norbert Elias, Bertolt Brecht, Arnold Hauser, Antonio Candido e José Guilherme Merquior, entre outros.
Leandro Konder faz um balanço extremamente abrangente e inteligente sobre um dos temas mais mal compreendidos na história das ciências sociais, duzentos anos dos debates acerca da ideologia. Apontando as utilizações antecedentes a Marx e depois de Marx, com uma vasta gama de autores marxistas e uma vasta gama de questões sobre a ideologia em nossas vidas. Creio que por não se propor desenvolver um conceito de sua autoria, como é de se esperar dos acadêmicos que desejam possuir a verdade, ele vê com astúcia os pontos que o debate progrediu e alçou melhor compreensão no próprio ramo da teoria do conhecimento. Em Gramsci, Marcuse, Benjamin, Goldmann, Adorno, Habermas e outros, aponta suas linhas de raciocínios e seus acertos na conceituação e combate à ideologia, contudo não deixa de fazer o papel de advogado do diabo os questionando em seus próprios termos para que ele próprio, junto com os leitores, adquirisse sua interpretação e compreensão em dentro dos próprios escritores. A segunda parte do livro, depois do balanço geral, é de imensa importância, com maestria pula de esfera em esfera da vida (linguagem, história, psicanálise, arte, ética, cotidiano e política) elucidando as ambivalências e ambiguidades, movimentos contraditórios das relações humanas sob a bruma da ideologia através da atuação prática revolucionária ou da teorização política.