Este pequeno livro surpreendeu-me pela positiva (e começo por reconhecer que, embora não esteja ao nível do "Para uma História do Fado", do Rui Vieira Nery, pode servir como porta de entrada para o estudo deste tema) — o autor analisa o nascimento e evolução do género musical Fado enquanto fenómeno social e cultural, tecendo assim uma leitura compreensiva das dinâmicas sociais e dos factos históricos que vão da sua génese até à sua consolidação como género autónomo. As mudanças estruturais ocorridas na sociedade portuguesa entre o século XVII e a década de 20 do século passado são tidas em conta na forma como o Fado surge e se desenvolve: nasce daqui um diálogo vivo entre sociedade e género musical, uma intrincada rede de sinergias onde cada relação é explicada e justificada; foi neste livro, por exemplo, que consegui vislumbrar melhor a relação entre costumes populares e a sua importação para as zonas urbanas (como o caso da tourada - um tema de difícil digestão, não o posso negar - e a sua relação com o Fado, com a cidade), ou até obter uma melhor compreensão da especificidade que fadistas como Amália Rodrigues ou Alfredo Marceneiro trazem para o Fado - criando-o, moldando-o, seja musicalmente, seja iconograficamente.