Uma obra a assinalar os 500 anos sobre o massacre que a 19 de Abril de 1506 vitimou perto de quatro mil judeus em Lisboa e que ficou conhecido como um dos mais cruéis da história.
SUSANA BASTOS MATEUS é Investigadora do CIDEHUS da Universidade de Évora; da Cátedra de Estudos Sefarditas Alberto Benveniste da Universidade de Lisboa, e membro do CEHR – Universidade Católica Portuguesa. É autora, em colaboração com Paulo Mendes Pinto, do livro Lisboa, 19 de Abril de 1506. O Massacre dos Judeus (Lisboa, 2007). Com Jaqueline Vassallo e Miguel Rodrigues Lourenço publicou Inquisiciones: Dimensiones Comparadas (Córdoba, 2017). A sua área de investigação principal centra-se no impacto da conversão forçada nas primeiras gerações de cristãos-novos, bem como nas dinâmicas da Diáspora Sefardita no século XVI.
Em boa hora comprei esta pequena jóia na Feira do Livro deste ano, porque o tamanho e os 3€ que custou não dão a ideia do seu rico conteúdo, Agora que o meu trabalho na Mouraria me leva a querer conhecer mais e melhor a história da nossa cidade, deparo-me aqui com uma descrição tão rigorosa e enquadrada quanto horripilante dos infames dias em que o Mal que se esconde na alma dos homens andou à solta pelas ruas da Baixa, entrou pelas casas de famílias adentro, matou crianças nas barrigas de suas mães, e queimou vivos quantos encontrou. Diria que é bom que saibamos estas coisas para que nunca mais se repitam, mas não tenho quaisquer ilusões quanto a isso. Os protagonistas podem mudar ou até os perseguidos serem os perseguidores, mas o ódio entre os homens parece fadado a sempre existir.
Este pequeno livro que se lê em 2 horas tenta reconstruir os eventos que levaram ao massacre de 4.000 judeus na cidade de Lisboa em 1506.
O livro também nos explica que o antissemitismo, tal como no resto da Europa cristã, era algo bem enraizado na sociedade portuguesa e que só a intervenção direta dos reis impediu massacres desta natureza no passado, não hesitando o poder real em punir com pena de morte os atos mais extremos contra os judeus.
Mas o final do sec. XV trouxe transformações e o jogo diplomático com os vizinhos espanhóis teve como consequência a conversão forçada dos judeus e a sua transformação em “cristãos-novos”.
D Manuel I pensa que é uma oportunidade de integração, mas o ódio a esta comunidade permanece mesmo que oficialmente cristã. Aproveitando um momento prolongado de ausência do Rei em Lisboa o inimaginável acontece, um desentendimento banal com um cristão-novo, numa cidade assolada pela seca e pela peste, e onde tudo o que é preciso é um bode expiatório para as frustrações de uma comunidade, tudo degenera num massacre em grande escala.
A violência é quase inimaginável como podemos ver neste relato de um comerciante alemão:
D. Manuel sente-se um rei traído, traído pela maior cidade de Portugal. Tenta punir os culpados, incluindo mesmo os frades dominicanos que instigaram o massacre. Mas já era tarde demais e as consequencias irreversiveis. Podemos mesmo dizer sem exagero que foi este massacre o ponto de não retorno que levou a que grande parte da comunidade judaica portuguesa abandonasse definitivamente o país nas décadas seguintes.
Podemos ter a ingenuidade de pensar que foram atos de outro tempo, de outra mentalidade retrógrada, mas não é verdade que atualmente assistimos em Portugal ao mesmo tipo de discurso de ódio, alimentado por um determinado partido, contra uma determinada comunidade? O ódio é algo que pode ser semeado, alimentado, multiplicado até a um ponto em que pode degenerar na mais cruel barbárie, com o silêncio cúmplice daqueles que acham que não têm que se preocupar as suas vítimas. Este massacre de 1506, recordado num monumento inaugurado em 2008 no Largo de São domingos em Lisboa, é uma importante lição de história e que esperemos nunca mais se repita
Bela obra com a reconstituição da chacina de 1506 em Lisboa (2.000 a 4.000 judeus chacinados). De como um povo (judeu) se fecha durante séculos em si próprio e na sua identidade, optando por não se diluir, e outro (o "hospedeiro") vai criando preconceitos, ódios e vontade de exterminar a minoria judaica. O rei tenta proteger a minoria mas a populaça, ajudada pelos frades dominicanos, aproveita um pretexto fútil para esmagar, violar, matar, com toda a crueldade.
Um capítulo negro na história de Portugal. Um livro de uma investigação indelével e que vem reforçar na memória presente aquilo que foi um acto hediondo de puro mal conduzido pela igreja católica - monges dominicanos, que anos depois em muito contribuiem para a instauracão da Inquisição em Portugal. Cerca de 4000 judeus morreram em 3 dias na cidade de Lisboa, que viu o seu povo sofrer duma "amnésia" colectiva como tentativa vã de se desresponsabilizar pelos actos cometidos.
O texto é um pouco confuso e desordenado nos fatos, indo e vindo nos fatos temporais. Mas detalha muitos eventos relacionados ao massacre 1506, e como a sociedade portuguesa lidou com este momento. No geral, é uma leitura interessante.