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A Boca na Cinza

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Há sempre uma morte que nos aguarda à nossa frente, um gesto morto, uma pessoa morta, um livro lido, uma palavra apagada, tenho de lutar todos os dias contra essas mortes, nem a memória me é consolo, de vez em quando perguntam-me: estás com pena de ti próprio? e eu respondo-lhes: e então? não me lembro de ter dormido com uma mulher, não me lembro de ter dormido com um homem, lembro-me de serem enormes as camas onde dormi, nunca vi um corpo nu, real, à minha frente, a única pele que toco é a minha, as pessoas nem sequer me apertam a mão, dizem-me: como estás? e passam-me ao lado, já estive +ara comprar uma boneca insuflável.
- são enormes as bonecas, mano,
- não há bonecas para anões.

132 pages, Paperback

Published November 22, 2003

28 people want to read

About the author

Rui Nunes

47 books30 followers
Escritor português e professor de Filosofia, Rui Nunes nascido em Novembro de 1947. Licenciou-se em Filosofia pela Universidade de Lisboa e enveredou pela actividade de escritor em paralelo com a de professor de Filosofia, na Escola Secundária Rainha D. Amélia, em Lisboa.
Na década de 60, passou pelos jornais, tendo visto censurados muitos dos trabalhos.
Com muitas dificuldades, publicou o seu primeiro livro As Margens em 1968, tendo que suportar as despesas da edição. Contudo, a sua actividade literária só assume continuidade a partir de 1976, quando, depois de ter regressado da Austrália, em 1974, publica Sauromaquia.
Imprimindo à sua escrita um discurso de características próprias, Rui Nunes não nega a influência de escritores que a vida lhe foi permitindo conhecer, nomeadamente Kafka. Temas como a dor, a doença e a morte são recorrentes nos seus livros.
Porém, e apesar desta temática recorrente que flúi na sua obra, o autor assume o acto de escrita como uma forma de sublimar a dor e com preciosos e comprovados (por ele) poderes terapêuticos. Por isso, gosta e tem prazer em escrever.
Leitor da obra de Agustina Bessa-Luís, Maria Velho da Costa, Maria Gabriela Llansol e de José Saramago, entre outros. Rui Nunes aprecia também outros géneros artísticos, nomeadamente o cinema (Bergman) e a música (Barroca e Jazz), admitindo que estes podem suscitar-lhe o gosto pela escrita. Premiado, em 1992, com o Prémio do Pen Club Português de Ficção, atribuído ao seu livro Osculatriz, os seus novos títulos foram sempre, saudavelmente, apreciados pela crítica literária.
Considerado por Manuel Frias, membro do Júri que atribuiu ao seu livro Grito, em 1998, o Prémio GPRN (Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (APE)), "uma das estrelas mais brilhantes da constelação literária portuguesa - ocultada, tantas vezes pelas nuvens do fácil e do óbvio", Rui Nunes entende que o sucesso de um livro não se prende com a quantidade das vendas, mas sim com o "espaço de cumplicidade" entre autor e leitor que é capaz de criar.

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Displaying 1 - 4 of 4 reviews
Profile Image for Joana.
62 reviews
July 6, 2016
A razão pela qual não dou cinco estrelas a este livro é muito clara, para mim: Rui Nunes recusa tudo o que são convenções literárias e, nesta minha primeira leitura, isso criou-me alguma estranheza afectando o meu ritmo de leitura. Não coloco de parte, por esse motivo, um dia retomar a leitura deste livro tão cheio de entrelinhas e dar as merecidas cinco estrelas. A linguagem, construção narrativa e próprias personagens são estranhas, pouco ou nada convencionais e, a meu ver, interessantes, inovadoras e curiosas. Um livro que me agrada por ilustrar uma certa ruptura e diferenciação. Pega nas regras literárias e desconstrói-as inteiramente e, para mim, isso terá sempre um quê de belo e de louco.

Neste romance o escritor mostra-nos um mundo fragmentado, onde os seres que nos são descritos se encontram reduzidos a um mundo degradado e onde se encontram de mãos dadas à sua condição de pobreza (alguma física e maioritariamente existencial). É-nos contada a história de dois irmãos anões que vivem juntos na mesma casa e, por isso, enquanto leitores temos uma visão priveligiada daquilo que é a intimidade entre dois seres afectados e dilacerados pela solidão, doença e melancolia. A escrita de Rui Nunes, e daí o brilhantismo deste livro, ilustra este universo distópico, desconstruído e negro sendo uma antítese perfeita do lirismo. Um livro cheio de crueza, de fragmentação (ao nível temático e formal) e dotado de uma certa "inquietação"!


" a dor é abrir os olhos para as paredes vazias do quarto, é a respiração crepitante, é o peito em quilha a subir e a descer, quando estou deitada, num movimento que é a minha vida (...)"
Profile Image for Lee.
171 reviews
February 27, 2017
" - as pessoas falam continuamente, e essa fala sem interrupção horroriza-me, a fluência que é a certeza das suas vidas, e do mundo, e de deus, eis-me sem lhes poder responder, porque só tenho a imprecisão, o tenteio, o tacteio, faltam-me palavras, as frases param a meio, preciso de respirar, preciso de saber com que movimentos se faz um rosto,
o teu
qualquer,
a palavra mais simples exige de mim todo o meu corpo,
cada palavra recompõe o meu corpo,
canso-me tanto
(...)"

"o mundo, de vez em quando, é-me indiferente, são volumes e espaços que o meu corpo não compreende, aleijo-me, tenho braços e pernas cheios de nódoas negras, arranhões nas mãos, hematomas, lambo as minhas feridas, como antes se dizia que um cão lambe as suas feridas, sei o gosto das crostas, do sangue, dos coágulos, da pele tensa sobre a dor, se houvesse deus, eu não seria mais do que um animal a passar a língua pelos joelhos, a sujidade que se acumula neles, porque estão perto da rua, do alcatrão, da terra, dos passeios, sabe-me sempre a pó a minha pele, e em pó me hei-de tornar, ou num rolo de cactos secos, no deserto dos filmes, que se move pelas ruas vazias até parar contra a parede, e um rosto surgir mudo, como se o silêncio o abrigasse, ou fosse o tecto da casa, ou a parede que desce num movimento de braços,
- a harmonia apaga-nos, apaga, afaga, isto é, lima-nos até sermos uma nota constante, uma raiva que outros lábios possam dizer,
(...) "
Profile Image for Patrícia Noronha.
Author 5 books23 followers
September 28, 2019
Tinha grandes expectativas em relação a este livro, o primeiro que li do autor Rui Nunes. A narrativa gira em torno de dois irmãos que são anões. Não há um princípio nem um fim, são pensamentos fragmentados, diálogos soltos. Paira uma dor persistente. A sensação que fica é de uma longa prosa poética, bonita mas repetitiva, numa espiral onde as personagens pouco importam. As memórias de infância da irmã são, para mim, os momentos mais intensos de A Boca na Cinza.
Profile Image for MT.
201 reviews
January 24, 2023
“ - o mano é um assassino,
- somos todos, matamos sempre o que amamos, matamos sempre alguém durante a nossa vida, matam-nos sempre também, um pouco,

(ninguém devolve a dor à minha fala, porque não digo que me dói)”



“- diz-me o teu nome
implora o rapaz do outro lado do muro
- se eu to disser, talvez me queiras ver, uma e outra vez, para mo dizeres, junto ao ouvido, num fingimento, porque ninguém diz o nome da pessoa amada, diz-se sempre: amo-te, sem mais, amo-te é tudo o que há para dizer quando se ama, o nome é uma espécie de amor ausente, doente, por isso perguntamos: Pedro, amas-me? se não temos a certeza do amor de Pedro, ou: Pedro, porque me abandonaste? se nos julgamos traídos, mas quando vemos aquele que amamos, dizemos unicamente: és tu?, tu, para ouvirmos como um eco da nossa voz: tu, és tu, (…)”
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