Em 1969, prestes a completar 14 anos, Rosália Araújo foi contratada para servir António de Oliveira Salazar. Durante anos, conheceu a vida doméstica do palacete de São Bento, liderada pela severa dona Maria, e o lado mais privado do Presidente do Conselho, com os seus hábitos, gostos, desgostos e segredos. No momento da sua morte, em 1970 foi a única empregada presente no quarto do ditador.
A Última Criada de Salazar é o relato minucioso da decadência e dos dias do fim do homem que alcançou o poder em 1932 e só o perdeu três décadas mais tarde.
MIGUEL CARVALHO nasceu em 1970, no Porto. É Grande Repórter da revista Visão desde dezembro de 1999. Em 1989, concluiu o Curso de Radiojornalismo do Centro de Formação de Jornalistas do Porto. Trabalhou ainda no Diário de Notícias e no semanário O Independente. Venceu o Prémio Orlando Gonçalves (Jornalismo), em 2008, e o Grande Prémio Gazeta, do Clube dos Jornalistas, em 2009.
Não é sobre a criada de Salazar mas essencialmente sobre os últimos 5 anos de vida do ditador vistos no lado mais pessoal e doméstico. Tem muita informação extraordinária sobre aquela época, conhecemos alguns amigos bem famosos que adoravam o ditador e temos uma visão bem profunda sobre o nascimento do regime e de várias coisas que aconteceram. Vale muito a pena este livro.
Com base num extenso rol bibliográfico, Miguel Carvalho dá a conhecer os últimos anos de António de Oliveira Salazar, figura controversa do imaginário político português. Consegue-o através de factos conhecidos, coadjuvados com os vários depoimentos de Rosália Araújo, que viveu bem de perto os últimos cinco anos da vida do Senhor Doutor. Foi a única pessoa presente no quarto de Salazar na altura da sua morte, por exemplo.
Para mim este livro foi uma autêntica surpresa. Além de ser escrito num tom absolutamente imparcial, revela-nos o lado desconhecido e humano de quem a História votou a um lugar menos apreciado. Isso é conseguido, por exemplo, na preocupação que Salazar manifestava pelo bem estar das funcionárias, assim como a sua firme recusa em gastar dinheiros estatais em algo comezinho e para proveito próprio. Falo do aquecimento do seu gabinete (o senhor era muito friorento), entre outras coisas. Há também lugar para a abordagem a uma série de conluios, intrigas e traições de bastidor que apressaram o fim iminente...
Um livro extremamente prazeroso, que dá gosto ler e que permite uma reflexão/comparação entre o antes e o agora, no que à forma de estar na vida e na política diz respeito. Eu própria mudei a ideia que tinha e, por influência materna e através de livros de outro autor, nunca o consegui... "Vi" ali muita coisa que daria gosto observar na situação actual. É ler para crer e reflectir naquilo que eu considero ser a reconciliação (?) com um passado não muito distante.
Resumindo este livro numa frase, de Joaquim Vieira, e que consta na obra...
A História está repleta de líderes políticos cuja vida privada não teve qualquer correspondência com o seu estilo de governação.
Miguel Carvalho reconstrói, com precisão e empatia, os últimos anos de vida de António de Oliveira Salazar, vistos a partir da perspetiva de Rosália Araújo, que entrou ao serviço do antigo Presidente do Conselho, em 1969, com apenas 13 anos. Foi a última pessoa a quem Salazar confiou a rotina da casa, permanecendo ao seu serviço até à morte, em 1970.
Entre as paredes silenciosas do palacete de São Bento, Rosália conheceu um mundo de rotinas imutáveis e disciplina rígida, governado por Dona Maria, a governanta que durante décadas zelou pela casa e pela imagem do chefe do Estado Novo.
O autor leva-nos ao coração desse microcosmo doméstico — um espaço de silêncio, rituais e poder — onde a jovem observava o homem envelhecido que já não mandava em Portugal, mas continuava a viver na ilusão cuidadosamente mantida pelos que o rodeavam.
Com o olhar atento do jornalista e a sensibilidade do narrador, Miguel Carvalho revela, a partir de testemunhos, documentos e memórias, o lado mais íntimo de Salazar: um homem metódico, solitário e vaidoso, preso à rotina e à própria ilusão de poder.
O livro é também o retrato de um país em fim de ciclo — cansado, reprimido e agarrado às aparências.
No fundo, esta é uma história sobre poder e solidão, lealdade e esquecimento — e sobre como até os grandes nomes da História acabam reduzidos à sua condição mais frágil: a de seres humanos dependentes dos cuidados de outros.
2,5 ⭐ Confesso que esperava um pouco mais deste livro. Não sei bem definir porque não me conquistou, sendo eu uma especial curiosa pela temática da ditadura, 25 de Abril e colonialismo. Achei curioso o retrato de algumas características da personalidade de Salazar, mas confesso que me custou que fosse retratado de uma forma tão "normal". É assustador o quanto um monstro pode, de facto, mesclar-se entre nós. A própria participação da criada mostra o quanto dentro de casa o dia-a-dia era vivido como se não estivéssemos numa ditadura. Talvez não me tenha conseguido conectar com o livro pelo quanto me pareceu "um relato de um dia-a-dia normal". É duro contactar com o facto de um ditador poder ser o nosso vizinho do lado. Sobre a temática, preferi o livro "Antes do 25 de Abril: Era Proibido" de António Costa Santos
Apesar do título, o livro não é centrado nesta "criada", mas sim no ambiente à volta da mesma e no ambiente doméstico de Salazar. Através do testemunho da personagem do título, e de outras pessoas, o autor dá-nos uma fotografia dos últimos anos do ditador. É um livro que se lê bem, e dá-nos uma visão de um lado menos conhecido de Salazar.
Um documento brilhante para quem quer perceber melhor os últimos dias do regime salazarista, com a ajuda de quem viveu esses tempos por dentro. Para mim foi especialmente interessante perceber o "teatro" em que Portugal viveu entre a "queda" do ditador e a sua morte, quase 2 anos depois.