A aldeia de Medinas seria um lugar bem mais aprazível não fosse contar-se entre os seus habitantes Álvaro Cobra, um lavrador que atrai fenómenos sobrenaturais e tão depressa é tido por bruxo como por santo: não chorou ao nascer, com um mês já tinha dois dentes, consegue ouvir a Terra girar sobre si própria, tem uma cadela que adivinha o tempo e, além disso, já morreu duas vezes - mas ressuscitou, e desde então um bando de grifos faz ninho no seu telhado. A sua estranheza impediu-o, porém, de arranjar mulher, mas o encontro com a filha de um nómada que vende torrão doce na Feira de Setembro promete mudar esse estado de coisas, ainda que a união traga surpresas (nem sempre agradáveis) quer ao próprio lavrador, quer às mulheres da sua família: a bisavó Lourença, que conta cento e cinquenta anos mas guarda invejável lucidez; a mãe, que consegue trabalhar a terra com uma mão e cozinhar com a outra; ou mesmo Branca Mariana, a irmã excessivamente febril que vive prostrada numa cama onde os lençóis chegam a pegar fogo. Do casamento atribulado, nascerá Vicente, o filho de quem se espera uma existência completamente distinta da do pai. Porém, tratando-se de um Cobra, nunca fiando…
Ao ficcionar uma aldeia alentejana em finais do século XIX - na qual judeus, árabes e cristãos andam às turras e os mitos ganham terreno à realidade -, Carlos Campaniço oferece-nos uma galeria de personagens inesquecíveis, que vão de um anarquista à dona de um bordel ambulante, e recicla de forma original o realismo mágico para revisitar as virtudes e os defeitos das pequenas comunidades rurais do nosso Portugal.
Carlos Campaniço nasceu em Safara, no concelho de Moura, em Setembro de 1973. É licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, variante de Estudos Portugueses, pela Universidade do Algarve, onde adquiriu também o grau de Mestre em Culturas Árabe e Islâmica e o Mediterrâneo. Vive há dezassete anos em Faro e é Director de Programação do Auditório Municipal de Olhão, o mais recente teatro do Algarve.
Gostei muito do “Demónios” e de todas as suas personagens. Álvaro Cobra que morreu duas vezes, nunca viu o mar e conversa com o pai, que morreu só uma vez mas completamente. O errante subversivo Benalma que diz mal do padre ocioso, dos santos e da Igreja em geral. Mais a prostituta Margot com o seu espectáculo de luz e cor. Maria Braz com as suas mãos diferentes, uma gorda outra magrinha. A avó que parece que já morreu e esqueceu-se de avisar. A Clarinha nómada que é obrigada a casar com o velho Álvaro e a lançar âncora numa única terra contra sua vontade. Tive pena que a Clarinha se sumisse a meio da história, fiquei com curiosidade de saber mais sobre ela. Estranhamente ou não lembrei-me muitas vezes dos livros que li da Isabel Allende, com as suas personagens fora do vulgar. Menos a parte dos grifos, esses fizeram-me lembrar os abutres do Lucky Luke. Gostei também do bom humor existente aqui e ali: “...Álvaro Cobra, mais bruto do que uma mula, nem ouviu as últimas ameaças do padre e deixou-o a pregar para as hortaliças sequiosas, ideia que nem o sábio Vieira havia alguma vez cogitado por ter na fé melhores ouvintes entre os povoadores marinhos.” “... Benalma ... Inventou, na sua cabeça feita para as invenções, que o padre se chamava Jesuíno porque tinha herdado Je do pai e suíno da mãe.” “Quando os grifos o viram com tão pouca vontade julgaram-no doente. Discutiram às bicadas os melhores lugares no telhado... – São uns ingratos, estes cabrões! – desabafou Álvaro com a mãe, depois de uma noite de insónias com o rosnar dos necrófagos. – Fingem-se afeiçoados, mas no fundo estão à espera que eu morra para me comerem.” Em resumo, boa história, bem contada vale muito a pena.
Que personagem, o nosso Álvaro, homem rude e de rompantes tamanhos e que é, sem dúvida, inesquecível. Maria Braz, uma alentejana com duas mãos diferentes, Clarinha do torrão doce que tem vontade de ferro e alma de nómada. Lourença que viveu duas vidas. Vicente, que por amor é capaz de dar a vida, a alma, a voz. Álvaro Cobra e os seus prodígios arrancaram-me gargalhadas às primeiras páginas. Que surpresa tão boa foi ler o Alentejo, rude e pobre, nestas páginas cheias de vida e de imaginação. Que bom ler a tristeza contada com graça e alegria sincera. Que bom livrarmo-nos, ainda que apenas por um livro, do fado e nostalgia. Porque este livro tem nas suas páginas o ser Português contado de outra forma, tem um padre, vários judeus e até um indiano. Tem crenças e mezinhas. Tem a mistura que nos está no sangue e que tantas vezes recusamos. Cristãos, Judeus, Muçulmanos. Tudo bem misturado e criado sob o sol Alentejano dá nisto. Ah e tem grifos, pássaros que cantam à hora certa, febres eternas, gente que morre uma série de vezes e outras que teimam em não morrer, uma cadela que fala e tantas outras deliciosas loucuras que fazem deste um livro a não perder. Um livro absolutamente fabuloso, maravilhosamente escrito e que me convenceu às primeiras páginas e que não me desiludiu nas últimas.
Um livro que todos deviam ler. Um livro que me deixa orgulhosa porque é de um escritor Português. Por isso ide conhecer o Álvaro Cobra e depois venham cá dizer-me o que acharam.
Os Demónios de Álvaro Cobra, de Carlos Campaniço, é um livro que nos transporta para uma aldeia alentejana, nos finais do século XIX, onde coabitam cristãos, judeus e árabes. A personagem principal é Álvaro Cobra, um humilde, simples e estranho agricultor, e a narrativa gira em torno desta personagem e dos seus familiares diretos. É uma história repleta de fenómenos sobrenaturais, crenças e mitos.
A forma de escrita de Carlos Campaniço é simples, mas enriquecedora e o enredo bem construído, no entanto (e apesar de a história estar repleta de pormenores extraordinários) falta um pouco de singularidade à história. Ao terminar o livro fiquei com a sensação que este livro não me trouxe nada de novo e surpreendente, e que encaixa num género de história comum a vários autores portugueses. De qualquer das formas, a leitura não foi enfadonha e foi um prazer conhecer mais um autor nacional.
Excertos do livro:
“Foram horas felizes, aquelas que vieram depois, porque a alma do ser humano de pouco se alimenta, não precisa de razões exactas para ser feliz, basta haver um assomo de esperança para que o fermente em felicidade. E somos, assim mesmo, felizes, sem termos tragado da felicidade, porque do odor se faz líquido bebido.” (pág. 136)
Carlos Campaniço recebeu o Prémio Literário Cidade de Almada 2012, pelo seu romance Os demónios de Álvaro Cobra,
Neste romance cruzam-se os temas do amor e morte, da esperança e exaspero. Situada numa aldeia alentejana do século XX, a intriga gira em torno de Álvaro Cobra, uma raridade da natureza, tido ora por santo, ora por bruxo. As alegrias e contrariedades vividas por Álvaro, pela família Cobra e por demais habitantes da aldeia intercalam-se, apegam-se. O retrato de um Alentejo intemporal e do inusitado carácter de um povo que se inventa a si mesmo é feito num ritmo invulgarmente ágil e num tom airoso, que equilibra peripécias risíveis, violentas e de uma imensa ternura.