Fernanda, filha de Eduardo Lobo, um advogado oposicionista suspeito de ter à sua guarda documentos secretos que incriminariam alguns dos membros mais importantes do regime de Salazar durante a Segunda Guerra Mundial, envolve-se com Augusto Torres, um jovem e ambicioso membro da Legião Portuguesa, que recebeu a missão de descobrir tais documentos. Eduardo Lobo aparentemente suicida-se, o legionário casa com Fernanda e os comprometedores papéis não aparecem. Ficarão a pairar ao longo dos anos como uma ameaça sobre vários interesses e ambições. Fernanda revela-se uma mulher fora das leis da sua época e Augusto um homem capaz de tudo para ascender aos mais altos cargos do regime. Após o casamento, os indícios que foram chegando a Fernanda Torres fizeram com que não conseguisse pensar no marido sem ser como o assassino do seu pai. A partir daí, mais do que procurar a verdade, Fernanda quer fazer justiça para lá do tempo, causar-lhe todo o mal possível, vingar-se.
Carlos Vaz Ferraz, pseudónimo literário de Carlos Matos Gomes, nasceu a 24 de Julho de 1946, em Vila Nova da Barquinha. Fez os estudos secundários no Colégio Nun’Alvares Pereira, em Tomar. Foi oficial do Exército, cumpriu comissões durante a guerra colonial em Angola, Moçambique e Guiné nas tropas especiais «Comandos». Publicou os romances Nó Cego, ASP, De Passo Trocado, Os Lobos Não Usam Coleira, O Livro das Maravilhas, Flamingos Dourados, Fala-me de África e a novela Soldadó. O romance Os Lobos Não Usam Coleira foi adaptado ao cinema por José-Pedro Vasconcelos com o título Os Imortais. É autor do argumento do filme Portugal SA, de Ruy Guerra. Colaborou com Maria de Medeiros no argumento do filme Capitães de Abril. É autor do guião da série de televisão Regresso a Sizalinda, com base no romance Fala-me de África.
Impressionante a viagem histórica que fiz ao ler este livro. Desde a Conferência de Berlim no fim do século XIX, passando pelo relato da morte dos Bragança, os acontecimentos da I Guerra Mundial, a 'neutralidade' de Portugal na II Guerra Mundial, a Guerra Colonial, o salazarismo, as jogadas políticas, o relacionamento com a Inglaterra, a religião, o sexo, a crença da sociedade portuguesa nos últimos cem anos. Fernanda relata a vida dos seus progenitores e do seu descendente à irmã São José, freira que tem como tarefa ajudar Fernanda a recolher documentação sobre a sua vivência. Fernanda conta o divórcio do pai de uma inglesa que mais tarde viria a ser a amiga lésbica de António Ferro (nos anos do salazarismo), menciona a taróloga que lia o destino a Salazar e que originava discussões entre este e o amigo Cerejeira, relata a guerra colonial como a pior de todos os tempos e do problema existencial dos mulatos - netos de avós que deserdaram os filhos por darem um neto de outra cor - fala de amantes, inimigos, do sonho no enriquecimento fácil nos casinos de Macau, da morte do pai que a persegue e que a obrigou a casar com o legionário que supostamente o matou. Relatos fantásticos da nossa história portuguesa. Impossível o leitor não se identificar com determinadas épocas.
O defeito deste livro foi o capítulo final. Completamente dispensável.
Mais um livro lido de Carlos Vale Ferraz, penso que é o sétimo e ainda tenho um outro, o último, para ler. Este - "A Mulher do Legionário" é depois do "Nó Cego" o que mais me entusiasmou, embora de géneros diferentes, pois além da ficção muito bem estrturada das personagens principais, o livro leva-nos numa viagem histórica que vai desde o assassinato do último Bragança até ao 25 de Abril, mostrando tanta coisa e de tal forma que é difícil distinguir a ficção da realidade, pois há nomes e situações que são reais. Mas a acção centra-se em Fernanda, uma mulher muito especial, filha de um advogado opsicionista e casada com um membro da Legião e completamente cego na sua fidelidade ao regime do Estado Novo e a Salazar. Interessante é o facto de o autor usar uma narradora - uma freira que conhece bem Fernanda, do seu tempo no colégio católico que frequentou, freira essa que progressivamente vai tomando um protagonismo cada vez maior nesta narrativa. Aliás, e isto não é uma critica, apenas uma opinião, a parte final do livro que tem esta personagem como base é a única que podia não constar, que não alterava o valor da história e do livro. Tenho que realçar a excelência de toda a obra de Carlos Vale Ferraz, quer nos livros sobre a guerra colonial - "Nó Cego" é um livro de culto deste acontecimento - até aos vários livros de ficção, quase todos baseados ou com referências fortes a África.