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112 pages, Paperback
First published January 1, 2012
Dispenso desde já as piadas sobre o xará que foi ao sol, vivemos em polos opostos. Eu mesmo derreti minhas asas de cera com a chama do isqueiro que o último amante esqueceu na mesa do telefone. Esse papo sempre me enojou. Se pudesse alçar voo o faria do terraço, de cima da tampa da caixa de água, da ponta mas aguda do para raios em noite de tempestade, da cadeira onde conto meu dinheiro antes de deitar e dormir.A surpresa pela descoberta de uma experiência tão diferente de Neon Azul é rapidamente substituída pela apreciação da uma narrativa mais realista. Aqui, a fantasia não ultrapassa a proposta: A sombra no sol é feito de histórias pautadas em uma realidade; a magia discreta do Neon Azul se substitui pela intimidade, sexo, e cenário urbano. Porque, a despeito da diferença entre as formas, o conteúdo se concatena em sua temática: mais uma vez estamos em um mundo imerso pelo luar, o sombreado da luz artificial dos postes cobertos pelos prédios do cenário metropolitano. A vida noturna das cidades, esta variação entre a casa, o bar, a rua, o apartamento. A sombra no sol se mantém em suas raízes da urbanicidade, repleto dos típicos e atípicos notívagos do centro urbano. E, com a noite da cidade, a vida desregrada à espreita, com suas promessas de prazeres infinitos. Se em Neon Azul este era simbolizado pelo próprio inferninho (com seu apelido já bem indicativo), aqui temos o próprio Ícaro, que é mais uma das atrações, um dos petiscos potenciais para o endinheirado habitante noturno. E, como aquele diabo em miniatura no canto esquerdo do ombro, com um olhar e um sorriso procura seus clientes, oferecendo tentação.
Da beira da janela só não voa quem não quer. (01. Muito prazer)
A noite se aconchega para que a cidade acenda janelas e risque as ruas em jogos de luzes e sons infernais. O caos humano se move num imenso reflexo de possibilidades. O destino de uns é a partida de outros. Não há lado que seja o contrário. o que há é muita gente lá embaixo, muitas roupas, disfarces, fantasias, olhares sob máscaras. Um deles deverá servir para mim. (29. O pulo do gato)Mas apesar das imagens, Ícaro, em seu caderno, não se esconde através de uma fachada contente: esta é reservada a seus clientes. É naquelas páginas em que pode depositar a sua melancolia, narrar seu ponto de vista, sentimento visceral transformado em prosa poética. Em páginas suas, prova ser si mesmo, experiência transformada em literatura. Mas não deixa de carregar a sua voz, talvez o elemento que pese pra o não tão disposto: Ícaro exige abstração, rogue para que lhe acompanhe em suas figuras de linguagem, em seu discurso menos imagético que simbólico.
Para puxar conversa, ela conta do outro mundo. Diz que as drogas são mais fortes e que vou amar viajar entre espíritos errantes. Amar, ela se dá conta, palavra errada. E para se justificar fala que há muitas formas de se amar, e que as mais letais são as únicas sinceras, pois já sabemos o que esperar delas no fim. (27. Necrópole particular)Ele pode ser amado, naquela situação meio estranha, um pouco difícil, com clientes fixos. Assim, proteger as pessoas da claridade, ser uma espécie de seu pervertido eixo na realidade, sua sombra no sol. Mas quando elas somem, o ofício deve ser mantido. Em uma espécie de rotina eterna: só o que pode quebrá-la, e quebrá-lo, é quando parece de fato encontrar o amor. E então poderemos ver como ele foi se transformar naquele cadáver encontrado por Armando…