Este volume reúne duas saborosas novelas de Otto Lara Resende. A primeira delas, "A testemunha silenciosa", relata, pelos olhos de um garoto, um crime de família. A cidade (inventada pelo autor) de Lagedo, em Minas Gerais, reproduz em sua escala miúda as consequências da Revolução de 30 - mas não são as grandes questões políticas que estão em jogo, e sim os pequenos movimentos de medo e sobrevivência rasteira que vêm à tona. "A cilada", o segundo texto do volume, partilha o mesmo universo da primeira novela. Mas aqui a narrativa se concentra obsessiva numa única figura, o clássico avarento, revisitado no sertão mineiro. Como diz o escritor Cristovão Tezza em seu esclarecedor posfá "Estão aqui a pequena cidade interiorana de Minas Gerais, a linguagem embebida de traços do dialeto e do saber rural popular, no léxico e na sintaxe, as figuras arquetípicas do Brasil agrário - o padre, o prefeito, o boticário, a mulher forte, o marido fraco, o bêbado, o dono da venda, a criança, a professora. [...] Duas grandes linhas da literatura brasileira de seu tempo encontram na obra de Otto a barreira transformadora da urbanização - física e mental - de um país novo que estava surgindo".
Nasceu em São João del Rei, Minas Gerais, em 1922, e morreu no Rio de Janeiro no final de 1992. Formado em direito, exerceu diversas profissões, de professor a adido cultural em Bruxelas e Lisboa. Jornalista, trabalhou em diversas publicações enquanto burilava uma relativamente pequena, porém significativa, obra literária. É autor do romance O braço direito, de coletâneas de contos como O lado humano, de reuniões de perfis jornalísticos como O príncipe e o sabiá, entre outros títulos.
Que livro excelente. A primeira história é a de um garoto mineiro cuja vida é irremediável e lentamente alterada pela Revolução de 30. A segunda história é sobre um Uncle Scrooge mineiro contada à maneira de um causo, cheia de expressões regionais, e não é feito de uma forma irritante, e sim deliciosa.