Em 'O livro dos mandarins', Ricardo Lísias narra a trajetória de Paulo, um executivo bem-sucedido e competitivo que possui uma única obsessão - ser escolhido, entre os candidatos do banco em que trabalha, para uma vaga na China. Para montar sua detalhada carta de intenções, ele vai muito além de seus concorrentes. Estuda mandarim, pesquisa dados históricos e culturais sobre o país, lê a biografia de Mao Tse-Tung, o Grande Timoneiro e se torna um especialista. Então, Paulo se torna um profissional completo, que tem como lemas a perseverança, a organização e a liderança. Uma vez em Pequim, sua carreira estará garantida. Poderá galgar postos no banco, chegando à presidência do conselho em Londres. Depois, quem sabe, escrever um livro de autoajuda para jovens executivos e até, talvez, abrir sua própria empresa de mentoring, coaching e counselling. Paulo só não conta com um pequeno detalhe - os planos reservados a ele são muito diferentes do que poderia imaginar.
Ricardo Lísias nasceu em 1975, em São Paulo. Estreou na literatura em 1999 com o romance Cobertor de estrelas, traduzido para o espanhol e o galego. Publicou as novelas Capuz e Dos nervos. Lísias também é autor de Duas praças, Anna O. e outras novelas, finalista do Prêmio Jabuti de 2008, e do romance O livro dos mandarins, vencedor da Copa Brasileira de Literatura de 2011. Publicou os livros infantis Sai da frente, vaca brava e Greve contra a guerra. Graduado em letras pela Unicamp, é mestre em Teoria Literária pela mesma universidade e doutor em Literatura Brasileira pela USP. Em 2012 foi selecionado pela revista Granta como um dos vinte melhores jovens escritores brasileiros.
Ricardo Lísias é um autor brasileiro que inexplicavelmente ainda não se encontra publicado em Portugal - Hello? Editoras? Alguém aí? Knock knock! A minha curiosidade aumentava cada vez que alguém falava (sempre bem) sobre "O Céu dos Suicidas" ou "Divórcio". A bem da verdade ainda não tinha lido comentários a este título (simpaticamente oferecido pela gentil, sempre adorada, Denise), mas só esperava coisas boas. Às primeiras páginas quase tive uma epifania. A forma de contar a história é muito original: num fluxo, sem pausas, as descrições e diálogos vão acontecendo dando voz, ora à consciência de uma personagem, ora à consciência de outra, ou até mesmo à experiência de um narrador heterodiegético omnisciente. E quando digo um fluxo, quero dizer que de facto o que está para a frente se liga ao que ficou para trás e que este passado condiciona tudo. Condiciona por exemplo a evolução do nome das personagens que nunca é estanque, embora todos os nomes tenham tendência a pertencer à mesma família (Paulo, Paula, Paulinho, Paul, Paulson, Paul* ou diversos Omar Hasan Ahmad al-Bashir). A juntar a isto temos previsões certas de um futuro que, descobrimos mais tarde, pode não chegar a acontecer. É um livro fácil de ler, a atenção que requer na identificação das personagens é compensada pelas repetições exaustivas de uma ideia ou de um parágrafo que ficamos a conhecer de cor, como se a história fosse contada várias vezes. Sim, já sabemos que a personagem principal é uma admiradora fervorosa do "ex-presidente e sociólogo Fernando Henrique Cardoso", que tem uma dor de costas que "se desloca e cada dia fica em um lugar diferente" e que esta melhoraria (ou melhorará?) com o "uso da Ceragem, uma cama que, com quarenta minutos por dia, alivia a dor nas costas de qualquer um". Este não é um livro sobre a China. Na realidade é um livro sobre negócios, sobre corporações, sobre lealdade constitucional, sobre ambição e sobre assuntos mais sérios que não adianta agora aflorar. Tudo abordado com um toque de humor saudável e indispensável. Para mim o melhor é a forma como está escrito, surpreendente a cada passo, embora me parecesse mais sensato que tivesse menos páginas. O pior é mesmo esta sensação de confusão que me assaltou quando virei a última página, a certeza de não ter alcançado o objetivo e a malograda esperança de assistir a um final que pudesse dar sentido a tantas pontas soltas. Se não for pedir muito, alguém que me dê a mão.
De fato, um grande livro. Concordo com aqueles que consideram Ricardo Lísias um expoente da literatura brasileira contemporânea. A partir de uma pesquisa extensa sobre cultura empresarial, o autor trata com ironia fina e crítica implacável o modo de vida dos "winners" do nosso tempo. Acaba desmontando de forma mais competente do que os acadêmicos a ideologia que elege esse modo de vida insano como o ideal. Os verdadeiros artistas sempre percebem primeiro.
Lísias é extraordinário criando narradores e jeitos de narrar. A história narrada (eu sei que não há uma separação tão rígida), em si, me pareceu quase secundária, creio que muito pois me vi perdendo o interesse nela, especialmente após o final do primeiro livro.
RICARDO LÍSIAS É UM TCHUTCHUCO. Esse livro em duas palavras: super sagaz! Me diverti muito lendo, mas o Céu dos Suicidas tem mais culhão, I guess. Fico triste que mais gente não tenha lido!!