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Maina Mendes

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«É na trama de uma escrita densa e plural, de um virtuosismo sem exemplo entre nós, que Maina Mendes se encontra inscrita e dispersa em múltiplos perfis, «puzzle» voluntário organizado do interior (ou do lado invisível da trama) pela pressão uniforme do mundo recusado, mundo masculino onde ela é a voz silenciada, negada ou submersa que se recusa à afonia definitiva. (...) Nenhum dos nossos livros contemporâneos redistribui com tanto sucesso as experiências mais criadoras da prosa portuguesa, de Fernão Lopes a Guimarães Rosa, paisagens atravessadas e recriadas, a par de outras, com uma originalidade absoluta.» Eduardo Lourenço

244 pages, Paperback

First published January 1, 1969

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About the author

Maria Velho da Costa

34 books70 followers
With a germanic philology degree, Maria was a high school teacher and member (and later president) of the "Associação Portuguesa de Escritores", the portuguese authors association.

She was deputy secretary of state for culture in 1979 and was second in charge for the cultural theme for Cabo Verde from 1988 to 1991 and now work for the "Instituto Camões" (Camões Institute).

She had regular contribution to movie scripts, particularly in films by João César Monteiro, Margarida Gil and Alberto Seixas Santos.

She was involved in the conception of a controversial book with the title "Novas Cartas Portuguesas" in 1969 with other two authors (Maria Teresa Horta and Maria Isabel Barreno, the three Marias) in wich the plot criticized the traditional position of women in social life and indirectly criticized the fascist government.

Books: Novas Cartas Portuguesas (with Maria Teresa Horta e Maria Isabel Barreno), Irene ou o Contrato Social, O Amante do Crato, O Livro do Meio (com Armando Silva Carvalho)

She won the Vergílio Ferreira prize in 1997 and the Camões Prize in 2002.

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Profile Image for Katya.
485 reviews
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March 8, 2024
Maria Velho da Costa era dotada de uma verve surpreendente, de um virtuosismo que lhe aproxima a escrita da música - e certamente ela o sabia pois há interferência assumida da segunda na primeira em vários pontos da sua obra, Maina Mendes não sendo exceção. Por isso, como a sua poesia, também este romance requer do leitor o ouvido, a noção de ritmo e, claro, de tempo. Tempo prosódico, mas também tempo físico para ler e para digerir a leitura simbólica, cheia de arabescos e estruturas invertidas.

A MUDEZ
Pois é tudo isto que dá substância à heroína da história, Maina Mendes, mulher de fúrias contidas na tentativa de silenciar um sexo fraco, o sexo fraco; uma mulher, a mulher. E assim vai desde criança, Maina Mendes, reprimida pela dureza dos tempos e pela conivência da mãe:

Vacilante e pensado com vagar, em meio em muitas outras linhas de pensar inacabado, o dever de que as que lhe nascessem fémeas fossem senhoras a ajeitar, a mãe diminui-lhe o nome, encolher a quer e tolhê-la ao fofo e à compostura, os bandós pesados e afinal em seu lugar medido.


Felizmente para ela, existe Hortelinda, a mulher telúrica, a feiticeira, a maga saída dos primórdios dos tempos, uma mulher que arrasta consigo um saber primordial debaixo da condição de uma servente:

A Hortelinda, a viseira manchada de curvar-se ao forno, põe-se de peso todo no rolo da massa, os maxilares prenhes da ossatura ancha que lhe vai por todo o corpo, a boca encolhida em sulcos verticais sob as gotículas de suor do esforço cego, do esforço que é a obediência parca de reflexão dos que cargam a gosto de outrem.


É a influência de Hortelinda que, mais que qualquer outra, molda a sua ferocidade, o seu auto-domínio, a sua bestialidade...

(...) se depois de me largarem a servir tive quereres, só em vê-la medrar, só nesta hora que havia de vir de casar-se alto e estimada sem devenças a ninguém e de lhe criar os filhos como se os fizéramos ambas. Quem a ninou, menina, às esconsas da ama, sem a mãezinha saber...

...em contraste com o mundo castrador, com a casa-prisão que a deviam tornar submissa, doméstica, domesticada:

Apenas Maina Mendes jamais seria amante em espaços curtos, nos climas sóbrios dos tempos e da zona de gentes em que nascera, criatura demasiado habitada por heranças outras, tenaz na ímpia solidão e avessa à domesticidade.


E tão rebelde é Maina Mendes que, mesmo de grito reprimido, continua eloquente numa espécie de natureza inata ao corpo:

Depois da mudez é dita por apagada trato. Os seios despontam-lhe sem pasmo, bem chegados aos braços, sem juntura, e sempre pareceu saber ao que vem e como bem se oculta o sangue dos meses. Maina Mendes persevera na sua mudez de corpo, tal como a besta fera sobrevive cordata entre os humanos, no mandamento que a tem escolhido - crescerás entre os seus teres e cuidarás em desprazer da riqueza dos túmulos que lhes enviei.


Natureza essa que também será cerceada pelos ditames de uma sociedade que a quer subjugar ao silêncio e à natureza masculina:

(...)não é do querer de homens de vinho fino e siso palavreiro que espero. Não há neles querer bem a isto, o ter onde acoitar a pena, o esfregão negro que trago dentro desde que me conheço, o lume sem serventia.(...)não busquei homem mas guarida segura para seguir sendo sem dono e sem repouso que me quebre.


Uma vez casada, uma vez mãe, a sociedade considera bem sucedida a sua tarefa: a mulher prostrada perde definitivamente a voz de que já havia abdicado a espaços.

O VARÃO
E eis que entra a fala de Fernando Mendes e eu, confesso, perco grande parte do interesse na narrativa. Enquanto homem, Fernando Mendes usa da voz que a mãe perdera, forçada a dela abdicar, mas usa-a em jeito de confissão que mascara mais uma vez a figura feminina:

Porque lhe não bastei? Que basta para bastar a outrem?


Apesar disso, a força das suas reminiscências tem como figuras centrais as mulheres que habitam esta narrativa, aliás, todos os homens aqui estão apenas para ecoar (traduzir) os silêncios das mulheres. O marido de Maina, Henrique, também a apostrofara: minha senhora esposa, nem esposa, nem senhora, e a sua mãe...

Tua mãe tão mole e intimidada que parecem fligrana firme sobre natas as rendas de que se cobriu(...) em seu amor que sempre foi cedido e brando(...) Como pudeste ser sem mãe?


Da mesma forma, Fernando Mendes se volta para a sua mulher, Cecily...

Minha mulher que eu pensei frágil (... ) e assim tombei nas malhas do combate que travámos e que hoje sei ganho por ela [...].


...e sua filha, Matilde:

(...)se é verdade que me ocupou bem mais do que jamais minha mulher, isso se deve à forma bruta como ela ocupa o espaço, bruta e bela.


Mas são as suas preocupações que reinam no seu discurso, as suas frustrações de homem aquelas a que quer dar destaque, sobretudo quando posto frente a uma força maior e que não entende - a força do matriarcado em que a relação da mãe, da mulher e da filha (e antes também de Hortelinda) desemboca, deixando o homem desarmado, impotente, mortal:

Meu Deus, como lhe minto e apresso o passo sobre o agora. Espero, espero apenas, entende? E não é justo, ainda posso com uma mulher nos braços e passo os meus serões na névoa azeda e quente do álcool. Ainda o meu passo é fácil e já entendo que tudo a que pertenço me renega, tudo o que me interessa me enjeita por tardio de corpo.


Assim se entende que a sombra que Fernando Mendes projeta sobre as figuras femininas é, claramente, propositada; afinal o mundo dos homens é, como ele o apelida, o da palavra legítima, o que deixa às mulheres a não narrativa, a não existência.
Por este motivo, melhor aceito um narrador que não deixa falar a mulher do que um narrador que lhe sobrepõe a sua voz e lhe modifica a narrativa em seu proveito. Daqui que, embora admirando o trabalho de Maria Velho da Costa, não consiga manter o entusiasmo na longa segunda parte deste livro.

VAGA
Mas o terceiro capítulo recupera uma voz que só muito breve e de início se ouviu. Matilde, neta de Maina, recupera o discurso negado a tantas mulheres, forçando o progenitor a reconhecer:

Minha filha nascera com a milenar sageza daqueles para quem sobreviver não é uma contenção, mas um gosto.


Matilde, reencarnação de uma avó silenciada, é um espírito esclarecido, liberto, rebelde, independente, não servil, uma espécie de concatenação do grito represo de todas as mulheres que vieram antes de si, e uma forma de libertação que é, finalmente, oferecida à protagonista (pena a efemeridade deste capítulo):

Ah pai, quanta gente somos. Aqui, neste ar cálido, rodeada deste espanhol moroso e paciente, te digo quanta gente é precisa para cada um de nós se ir fazendo, quantos passos em nosso torno. E os melhores de nós são os que escutaram todas as passagens, guardando o passo das mais rijas, a graça das mais leves. E não morremos nunca. Apenas despelados, descarnados, seremos sem invólucro, enfim cumprida a promessa de explosão em que sempre estivemos.


A narrativa de Maina Mendes percorreu cerca de um século da história das mulheres portuguesas: o fim da monarquia, a queda do imperialismo, a primeira guerra, o tempo da ditadura, até à contemporaneidade da autora. Maina Mendes, silenciada pela palavra dos homens - a própria estrutura do romance aponta a isso - recupera a sua voz no corpo de Matilde, uma mulher moderna feita de muitas outras mulheres. De certa forma, Matilde transfigura-se nas mulheres que, na geração de sessenta mais do que nunca, fizeram ouvir a sua voz, lutaram pelo seu lugar, como uma espécie de lembrete ou estandarte a levantar pelos valores de ser mulher. Assim se justifica um capítulo tão curto para uma personagem tão grande: Matilde, como Maina, como Cecily, como Hortelinda, é uma mulher em construção. Maria Velho da Costa insuflou-lhe vida e libertou-a no mundo para a ver crescer e medrar.
Profile Image for tiago..
464 reviews135 followers
February 2, 2022
Eis um livro muitíssimo polarizante. Comecei a odiá-lo; acabei a adorá-lo. A escrita é extremamente confusa, difícil de ler, anárquica por vezes; mas nessa riqueza lexical e complexidade sintáctica existe uma beleza que não está ao alcance de muitos. É possível que não tenha percebido muito do que queria transmitira autora, mas os temas são interessantíssimos. É irritante de ler. É magnífico quando funciona. Amo? Odeio? Talvez ambos. Possivelmente assim começam os grandes amores literários. O futuro dirá.

Por enquanto, digo que acabei este livro dando-lhe uma nota predominantemente positiva. Por complexa que seja a escrita de Maria Velho da Costa, a verdade é que tem um verbalismo fora do vulgar, esta prosa quase prima da poesia surrealista, ziguezagueante, ornada, inesperada.

E depois, há também a protagonista - a misteriosa Maina Mendes. A rapariga que falava demais quando era pequena, que tinha modos de terrorista, que desesperava a mãe que não parecia conseguir fazer dela uma mulher decente; até que, num belo dia, se remeteu à mais completa mudez. Como reação a um ambiente social que buscava objetificá-la, deprivá-la da sua voz, Maina Mendes remete-se ao silêncio como uma forma de liberdade, de repúdio desse ambiente social. Fora desse silêncio, a vida segue: os pais, obtendo a quietação da sua filha, casam-na com quem não vê nela outra coisa que não "mole granítica onde afixar a monumentalidade de meu destino"; e Maina tem um filho, que lhe dará uma neta.

O filho é a outra figura curiosa deste romance. Ele possui a liberdade e a subjetividade que foi negada à mãe, mas permanece, apesar disso, incapaz de fazer uso dessa mesma liberdade. Nas suas próprias palavras: "Não pode oferecer-se-me como outro, porque eu sou outros, trilho apenas, eixo de ausências." Talvez seja isso que lhe motiva o suicídio, no penúltimo capítulo do livro; talvez não.

Mas um raio de esperança existe na forma da neta de Maina, Matilde. Ela, fora de Portugal, acha um espaço onde existir enquanto sujeito, recusando a sina feminina de ser objeto. Foi talvez por intuir isso que um misterioso sorriso apareceu na cara de Maina Mendes, na hora de nascimento da sua neta. Finalmente, cumpria-se.
Profile Image for Rute Paulo.
267 reviews23 followers
February 22, 2023
Confesso que iniciei a leitura a medo; nunca li nada da escritora e as vozes que fui ouvido a seu respeito falavam de uma escrita fragmentada que por só cria uma disponibilidade que não temos, quando lemos.
Os modos da leitura são, portanto, diversos e muitas das vezes são esses próprios modos que definem a nossa relação com o livro.
Talvez, por esse medo, a disponibilidade foi também ela maior e descobri-me numa voz completamente diferente da normalidade, uma voz que exigia a minha presença.
Adorei, portanto, "Maina Mendes" pela largueza do que conta e por todos os silêncios dispersos nas entrelinhas.
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