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122 pages, Paperback
First published January 1, 1999
Ouvir era deixar o mundo entrar em si. Ficava sem defesa, escutando. O som seguia o seu curso e ela deixava de existir separadamente, tornava-se parte do que acontecia. O que era também um risco. Quase de morte, pensava às vezes. Porque a música, de algum modo, estilhaçava-a, fazia-a sair de si mesma e arrastava-a para um estádio indiferenciado, não humano, contra o qual a música finalmente triunfava. Um triunfo imperfeito, contudo, porque a música tinha sempre de recomeçar, de acontecer de novo, para que o caos não se instalasse. Enquanto durava (mas nunca duraria para sempre), a música era uma forma de ultrapassar o caos, obrigando-o a caber numa medida. Ouvir era talvez isso: tomar parte na luta entre a medida e o caos.
Era uma entrevista, a propósito de um livro. Um romance, parecia. Havia uma fotografia da mulher que o escrevera(...). A mulher estava ligada ao teclado(...), ele fazia parte da sua vida. Mas em último caso o teclado não existia, era uma pura transparência. Ela procurava alguma coisa que não era da ordem das palavras, embora só pudesse transmiti-la em palavras, algo talvez comparável à música, embora não equivalente. Ondas de energia, que se organizavam numa determinada estrutura - sim, talvez se pudessem por as coisas nesses termos, não sabia ao certo.
(...)
os livros aconteciam no tempo. Como a música. Os romances, sobretudo. Eram, como a música, uma forma de medir e de organizar o tempo.
A música curava as almas. Ela também acreditara nisso. (...) Era tudo ilusão, pensou. O mundo talvez não fosse um cosmos, um universo ordenado. Provavelmente não tinha medida, nem escapava ao caos.
(...)Ela também não tinha medida nem fronteira. Estava presa à existência, mas não fixada nela. Ligada num só ponto, como uma folha num caule. Por isso vibrava excessivamente ao menor contacto com as coisas, que acabavam sempre por triunfar sobre ela.
Podia aceitar que assim fosse, pensou olhando em volta as cadeiras desertas. Aceitar o nada, o mundo vazio.
E apesar disso, pensou levantando-se e sentando-se no banco, apesar disso sentar-se e tocar.
Uma vez por ano, jogava na lotaria. Nunca tivera sorte, mas gostava de tentar. Uma vez por ano dava-se ao luxo de perder e fazia essa extravagância. Mas jogava também outros jogos, que de repente lhe vinham à cabeça: todas as semanas procurava na montra da loja da esquina os números que lhe pareciam mais prometedores. Assentava-os num papel e depois ia ver os números premiados, no dia em que andava a roda. Nunca acertava e metia com satisfação num mealheiro o dinheiro que não gastara. E assim tinha um duplo gozo tinha-se divertido com a escolha do número, o palpite e a expectativa, e ainda por cima arrecadava o dinheiro, rindo-se da sua própria esperteza.
Talvez com o tempo todos se esquecessem realmente deles e da história louca que Maria contara. Era isso o que ele mais desejava: que fossem uma família igual a todas, numa casa igual às outras, a salvo das bocas venenosas do mundo. Ele voltaria do trabalho à tarde, como os outros homens, e a família estaria reunida em volta da mesa, onde, segundo o uso, ele distribuiria o sal e partiria o pão, sem que nada os distinguisse dos demais.
lamos ficar à noite à lareira, como sempre sem dizer palavra, o meu pai bebendo da garrafa até adormecer, a minha mãe sentada no chão, olhando em frente sem pestanejar, como se quisesse cair dentro do lume.
Às vezes estendia as mãos sobre as chamas até se queimar. A pele ficava vermelha e devia doer-lhe, mas ela nunca se queixava. Untava a mão com azeite, enrolava-a num lenço, voltava a sentar-se e continuava a olhar o fogo. Se eu me punha na frente ela não me via. Os olhos pareciam vazios, como se tivesse ficado cega de repente. Nunca sorria quando lhe sorríamos, nem se voltava para nós quando a chamávamos.