A vida aventurosa e sonhadora do padre António Vieira, lutador, subversivo, é reinterpretada em O Sal da Terra como só Miguel Real o poderia fazer-num labirinto de episódios em que cada leitor poderá construir o seu próprio percurso, certo de que chegará sempre a bom porto, embora a viagem conduza inevitavelmente à morte triste e frustrada do grande orador. Educado em São Salvador-entre o jesuíta Fernão Cardim, a mãe-de-santo Sefina e o índio Mundé, seu fiel companheiro-, Vieira assiste à invasão da Bahia pelos holandeses, à revolta dos tupinambás e à visitação do Santo Ofício para purificação dos costumes. Chegado a Lisboa, onde a independência foi recentemente restaurada, interpreta as Trovas de Bandarra como uma profecia e passa a identificar D.João IV com o "Encoberto", braço de Deus para a criação do Quinto Império-reino de paz, justiça e harmonia em que crê acima de todas as coisas. De volta ao Brasil, construirá uma antevisão do Quinto Império, reunindo os índios tupis, convertidos à fé cristã, em grandes missões na Amazónia, salvando-os simultaneamente da escravatura. Com isso, porém, ganhará apenas o descrédito dos colonos, e expulsão da Companhia de Jesus do território do Maranhão e Grão-Pará e a posterior prisão pela Inquisição. Frustrado e fracassado, para o futuro deixará a sua história, a sua obre e o seu sonho, que ecoam até hoje no âmago da nossa cultura.
MIGUEL REAL nasceu em Lisboa em 1953. Fez a licenciatura em Filosofia na Universidade de Lisboa e, mais tarde, um mestrado em Estudos Portugueses, na Universidade Aberta, com uma tese sobre Eduardo Lourenço. Estreou-se no romance, em 1979, com O Outro e o Mesmo, com o qual viria a ganhar o Prémio Revelação de Ficção da APE/IPLB. Em 1995, voltou a ser distinguido com um Prémio Revelação APE/IPLB, desta vez na área de Ensaio Literário, graças à obra Portugal - Ser e Representação. Outra distinção importante surgiu em 2000, o Prémio LER/Círculo de Leitores, com o ensaio A Visão de Túndalo por Eça de Queirós. Em 2001, recebeu uma bolsa do programa Criar Lusofonia, do Centro Nacional de Cultura, que lhe permitiu percorrer o itinerário do Padre António Vieira pelo Brasil. A esse propósito escreveu um diário, editado em 2004, intitulado Atlântico, a Viagem e os Escravos. A partir de 2003, com a novela Memórias de Branca Dias, passou a escrever simultaneamente um ensaio e um romance para evitar incluir teoria (filosófica, principalmente) na ficção. Em 2005, Miguel Real lançou o romance histórico A Voz da Terra, cuja a ação decorre na época do terramoto de 1755, que viria a ter grande reconhecimento por parte da crítica e do público. A Voz da Terra proporcionou ao autor a conquista da edição de 2006 do Prémio Literário Fernando Namora, um dos mais prestigiantes galardões literários a nível nacional. Simultaneamente ao romance A Voz da Terra foi publicado o ensaio O Marquês de Pombal e a Cultura Portuguesa, situado na mesma época. Já em finais de 2006 foi lançado o romance O Último Negreiro, sobre o traficante de escravos Francisco de Félix de Sousa, que viveu em São Salvador da Baía e Ajudá, no Benim. Paralelamente ao romance e ao ensaio, Miguel Real dedicou-se, regularmente, à escrita de manuais escolares e de adaptações de teatro, estas em colaboração com Filomena Oliveira. Começou a colaborar regularmente no jornal literário Jornal de Letras a partir de 2000.
Muito bem escrito, como é apanágio de Miguel Real, narra a história do padre missionário jesuíta, António Vieira e as esperanças que depositava no advento do Quinto Império em 1666, fundamentadas nas profecias messiânicas de Bandarra. Não é, no entanto, um livro de leitura fácil, pelo que não o aconselho como “leitura de praia”.
Interessante este trecho extraído das páginas 322 e 323:
“Portugal pesava ao padre António Vieira, a destruição do sonho do Quinto Império era também a destruição do sonho de um Portugal imperial e providencial, o país ficaria, doravante, reduzido à insignificância, guiado pela ignorância (d. Pedro), a incultura (dr. Aníbal Caganitas e Silva) e pelo negócio (engenheiro militar Jorge Sócrates), porventura Portugal tornar-se-ia no país mais insignificante da Europa, nenhum monarca a ouviria senão para o ámen da aprovação dos interesses deste, nenhum príncipe contaria com a sua força, nenhum imperador se aconselharia com o rei de Portugal, nenhum assentista abriria filial em Portugal, pátria de pequeninos negócios de sobrevivência do engenheiro militar Jorge Sócrates…”.
d. Pedro? Dr. Aníbal Caganitas e Silva? Engenheiro Jorge Sócrates?
Pena que as profecias não se tenham concretizado… Pode ser que em 2016…
Podemos ler este livro de forma ordeira, capítulo a capítulo, ou lê-lo saltando os capítulos, adverte o autor numa nota ao texto. Eu escolhi ler tradicionalmente. Segui o padre António Vieira e o seu amigo Mundé pelo Brasil, Holanda e Portugal a tentar criar as condições para o Quinto Império, constantemente atropelados pelos interesses pouco espirituais dos seus contemporâneos. Tem também uns pózinhos de crítica à actualidade, através dos nomes de algumas personagens fictícias. Apesar deste não ser o melhor romance histórico de Miguel Real, continuo a considerá-lo a ele como o melhor cultor português deste género literário.
Gostei muito do livro não só pela escrita como também pelo conteúdo. Conheci desta forma um pouco da vida do padre António Vieira, no Brasil, na Corte do rei D. João IV e como foi perseguido pela inquisição sempre acompanhado por Mundé, seu amigo e confidente.