Os perigos de uma das mais poderosas formas de economia política de hoje, e as alternativas democráticas em prol das prioridades colectivasAtravés da interpretação dos contributos teórico‑práticos de alguns dos principais ideólogos neoliberais – de Friedrich Hayek a Aníbal Cavaco Silva –, este livro procura corroborar a seguinte hipó o neoliberalismo foi – e ainda é – um poderoso processo político‑ideológico de promoção do desencantamento em relação a uma política democrática assim tornada impotente. O capitalismo supranacional é apresentado como irreversível e benigno.O que aqui se mostra também é que o balanço do neoliberalismo não é brilhante, tendo conduzido à estagnação económica e a uma desigualdade social crescente. Apesar da luta sem quartel das elites dominantes contra a ideia de soberania nacional e democrática, há um outro caminho reencantar a economia através de alternativas construídas a partir dos Estados nacionais, reconhecendo a plasticidade e os limites dos mercados, circunscrevendo‑os e subordinando‑os às prioridades colectivas
Economista, investigador do Centro de Estudos Sociais, onde integra o Núcleo de Estudos sobre Ciência, Economia e Sociedade, e professor auxiliar da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. Doutorado pela Universidade de Manchester, com a tese Are markets everywhere? : Ludwig von Mises, Friedrich Hayek and Karl Polanyi. A sua investigação tem-se debruçado sobre temas de economia política, da história do neoliberalismo à crise do Euro, sendo autor de diversas publicações nestas áreas.
Vim pela perspectiva sobre Portugal e não fiquei desiludido. Muito interessante retrato histórico das ideias económicas (socialistas-desenvolvimentistas vs. neoclássicas) e ecossistema intelectual (dinâmicas epistemológico-politicas universitárias e institucionais) no pós-25 de Abril. No retrato desta luta ideológica (especialmente interessante até Cavaco), destaca-se a maior capacidade da direita (como acontece noutros países) para se organizar na produção de conhecimento e influência, e fica também claro como a cedência final às ideias neoliberais foi uma opção conjunta do centro político. Os capítulos introdutórios/de contextualização, apesar de trazerem pouco de novo a quem está familiarizado com o tema, constituem um resumo claro, estimulante, e acessível da literatura. De especial interesse, nesses páginas, a história do aparecimento da UE - indissociável do crescimento e materialização do pensamento neoliberal - e a sua relação com a evolução da esquerda europeia. De relevo também a demonstração da fricção existente entre a democracia e o ideal neoliberal feita através da análise do processo de elaboração e implementação do projeto UE + Euro. A exposição final sobre as razões do atraso económico português e extremo endividamento é também valiosa. Tenho simpatia pela solução oferecida para lidar com o diagnóstico do autor, apesar de me parecer politicamente irrealista e economicamente arriscada. Acho também que Rodrigues exagera quanto à escassez de opções disponíveis, e que não é justo com as alternativas que critica. Acrescentar ainda que, para fazer o caso que faz (a favor de uma economia radicalmente soberanista), Rodrigues precisaria (como de pão para a boca) de um conceito ou visão de nacionalismo que nunca descreve.
O neoliberalismo, segundo o autor, é o desencanto da política através da economia; como nos afecta e como o superar é o objectivo deste tratado de economia. O primeiro grande trunfo do neoliberalismo é a sua capacidade de se esquivar a uma definição. O livro abre com uma declaração nesse sentido por José Manuel Fernandes do jornal Público, para mais tarde se assumir como neoliberal, porém antes negou-o. Após ler o livro, o complicado não é encontrar a definição, é sair das teias do neoliberalismo, e fazer política; pela moeda, pelo trabalho e pela natureza. Tudo na nossa vida está preso a esta realidade, por mais pensamento mágico que tenhamos, ou que ainda acreditamos num rosto humano europeísta e social-democrata, isso não passa de ilusão, por mais de empurremos os problemas com a barriga. Oriundo do colapso da I Guerra Mundial e o final da II Guerra Mundial, o movimento que revitalizou o liberalismo clássico passa por ser uma sociedade culta e bem-falante de conferencistas e professores universitários - a Mont Pelerim Society, e durante esse espaço de tempo de todos os fascismos e das lutas antifascistas são publicados livros e feitas conferencias para defender um renascer da fénix liberal, entretanto manietada pelos coletivismos ditos socialistas e comunistas e os nacionalismos. Em 1944 Hayek publica O Caminho para Servidão - voluntária e hoje obrigatória. Começou assim de modo lento embora gradual o caminho assintomático para a servidão da classe trabalhadora e da pequena burguesia, que hoje anda atarantada atrás dos neofascismos, no final dos anos 70 e anos 90. Durante essa época as almas foram conquistadas, dizendo que eram soberanos, e sem abandonar a ficção da sua independência a sociedade europeia e portuguesa deixa-se cair no poço e por lá ficou a derivar na sombra. Segundo João Rodrigues, a grande cartada do neoliberalismo foi a sua aprendizagem e o seu alto grau de manipulação, que conseguiu espremer ao seu favor dos colectivismos que tanto criticava. Ao contrário do liberalismo clássico que tanto é badalado nas nossas escolas e faculdades e até nas conversas de rua e café, o neoliberalismo não copiou a fórmula gasta, mas inovou ao abandonar o laisser faire, pelo controlo do estado para criar oportunidade de mercado em todos os cantos e manter uma austeridade permanente para criar superavit no sector privado. No entanto, o neoliberalismo associado ao Consenso de Washington foi confrontado por outro consenso, originário de Pequim que tem criado grandes engulhos no modelo neoliberal com a ascensão dos BRICS, grupo de países que incorporaram as ideias da NOEI dos anos 70. Na Europa e na UE, o Euro, uma moeda que se criou para os mercados financeiros sem existirem impostos europeus, nem sequer um orçamento europeu anual, é em Portugal o maior agente sufocante, aquilo que faz estagnar um país e milhões de sonhos, que pretende fazer de Portugal uma "colónia balnear" ao estilo de uma Flórida em permanente estado de turistificacao. - Euro, tu és euro e sobre ti edificaremos a Europa. O pior é que inúmeras pessoas acha isto normal, e um grupo ainda maior de pessoas, votam com os pés, e a mudança que é essencial continua adiada. João Rodrigues com esta obra traça no chão a letras garrafais: não! O Neoliberalismo não é um Slogan.