O nome de Rodolfo Walsh, nascido na Argentina em 1927, evoca não apenas o militante político barbaramente assassinado pela ditadura nas ruas de Buenos Aires em 1977, mas também o narrador que, com o tempo, seria reconhecido como um dos escritores latino-americanos mais importantes da atualidade. Este volume, o primeiro livro de Walsh a sair em português, reúne a totalidade dos seus chamados "contos literários", nos quais não raro o elemento biográfico e o dado histórico servem de base para narrativas poderosas, que espantam pela acuidade com que o autor encena, de forma concentrada e sutil, conflitos universais de profundas implicações éticas e políticas. E se a dimensão política perpassa quase todos os textos — com destaque para "Essa mulher", considerado por muitos o melhor conto da literatura argentina do século XX —, o que sobressai no conjunto é a precisão estilística que atravessa diversos registros, desde a concisão mais extrema até a polifonia de sabor joyciano, captados com primor na presente tradução. Foram essas qualidades que levaram Ricardo Piglia - cuja histórica entrevista com o autor é aqui reproduzida — a declarar que a obra de Walsh é "um dos grandes momentos da literatura argentina contemporânea".
Rodolfo Jorge Walsh was an Argentine writer, considered the founder of investigative journalism in Argentina. He remains disappeared since March 25, 1977.
After finishing the primary education in his small town in Río Negro Province, Walsh moved to Buenos Aires in 1941, where he completed high school. Although he started studying philosophy at university, he abandoned it and did a number of different jobs, including editorial. In the late 1940s he joined the Alianza Libertadora Nacionalista, from which he later moved to the Peronist cause.
In 1953 he received the Buenos Aires Municipal Literature Award for his book Variaciones en Rojo. In 1957 he finished Operación Masacre, an investigative work on the assassination of opposition figures during the military government of Aramburu. In 1960 he went to Cuba, where, together with Jorge Masetti, he founded the Prensa Latina press agency. He was then close to the CGT de los Argentinos.
Back in Argentina in 1973, Walsh joined the Montoneros radical group, and four years later he was killed during a shoot-out with a special military group that set him an ambush. His body and some of his writings were never seen again. The day before his death he wrote an Open Letter to the Military Junta protesting that their economic policies were having an even greater effect on ordinary Argentines than their human rights abuses.
Four films have been based on his work, including Operación masacre (1973) and Asesinato a distancia (1998), and three of his books were published years after his death, most notably Cuento para tahúres y otros relatos policiales.
Conhecia Walsh em função do clássico Operação Massacre; sabia, também, que ele tinha sido morto, em Buenos Aires e em plena luz do dia, pela ditadura argentina, momentos depois de ter escrito uma carta denunciando o regime.
Sabia, também, que o corpo dele nunca mais tinha aparecido.
O que não conhecia eram seus textos de ficção - o que fiz por esta edição da 34, que reúne os três livros de conto mais importantes escritos pelo autor.
O grande conto, sem dúvidas, é o primeiro - e que dá origem ao título da coletânea. Essa mulher - Evita - que não se nomeia no texto, mas que qualquer leitor argentino da época identificaria imediatamente. Vale muito a leitura.
“— Não tem jeito, major. Se esperarmos pela crise, vamos provocá-la. Precisamos de decisão”.
“Eu sei que está errado, que o soldado de guarda não deve dormir, deve vigiar o campo e relatar as novidades. Mas é que não tem novidade, senhor tenente, o inimigo está a cento e vinte anos de distância, aqui nunca tem novidade nenhuma e o céu é a única coisa que muda de lugar”.
“Não é verdade que o sargento me mandou matar as formigas do coronel. Se ele esqueceu, não é minha culpa, mas é que a verdade vai conforme a patente, o senhor acredita nele e não acredita em mim, a corda sempre arrebenta do lado mais fraco”.
“Isso lhe deu consolo, uma espécie de indefinida felicidade”.
“Mas antes eles reclamavam? Não. Pouparam? Até pare-ce. Fizeram melhorias? Nem uma estaca. Punham a culpa nos verdadeiros responsáveis? Também não. Agora a culpa é dos que vieram botar um pouco de ordem, tirar o país da ban-carrota, e que continuarão a ser insultados quando em cada praça houver um monumento a um demagogo”.
“Não e que ele tivesse razão, Despervasquez. A razao estava nas coisas.”