Construído de forma original, com 156 capítulos curtos, A passagem tensa dos corpos trata de um tema consagrado, a morte, com uma abordagem e ambientação surpreendentes. O narrador-personagem, figura indefinível e incorpórea, não é visto nem percebido por ninguém. Sua principal ocupação é percorrer cidades e registrar as mortes que encontra pelo caminho. Numa dessas localidades, há um morto insepulto, cuja família não parece disposta a velar ou enterrar. Como se nada tivesse acontecido, o cadáver é mantido amarrado à cadeira na mesa da sala, a esposa e a filha se ocupam dos preparativos para o casamento da menina, e o filho do morto permanece trancado no quarto. Se a civilização se ergue sobre uma pilha de cadáveres soterrados, também a vida de cada um precisa da morte para se constituir. Diante da situação surreal testemunhada na casa, o narrador aos poucos se dá conta de que para existir de fato, necessita, ele mesmo, se apropriar de um dos corpos que registra. Carlos de Brito e Mello lança mão de uma linguagem fragmentada e precisa para imprimir ao romance um andamento trepidante e acelerado. Ironia e humor negro bem medido também compõem esta narrativa sobre a morte e sua relação com a memória, a linguagem e o ofício de narrar.
Reli para fazer uma relação do livro com Totem e Tabu e, acredito que tenha aproveitado mais a leitura que da primeira vez. Primeiro, porque é evidente como os dois textos estão interligados, dá para perceber logo nas primeiras páginas: qualquer comunidade no mundo será fundada a partir de uma morte e é ao redor de um cemitério que se desenvolvem as cidades. Assim como no texto freudiano, em que a ideia de civilização nasce a partir do assassinato do pai de uma horda, em 'A passagem tensa dos corpos' também um pai é morto, com duas diferenças que penso serem importantes: não se sabe ao certo se foi um assassinato e, se tiver sido, parece que são duas mulheres que o cometeram.
Os nomes das comunidades prestam uma homenagem aos seus mortos de origem mas no texto do livro os nomes dos personagens só aparecem através de uma inicial, porque só se pode dar um nome a alguém depois que essa pessoa morre. Essas informações são contadas por um narrador que não tem corpo, é "só" palavra. Aliás, um narrador que desafia nosso exercício de imaginação, porque ele não tem órgãos mas a descrição me fez pensar em decrepitude. É possível imaginar o vazio decrépito? É possível imaginar o vazio constituído de linguagem? Segundo Lacan, não, a linguagem é o que rodeia o vazio que nunca poderá ser colocado em palavras porque fazer isso seria morrer. Mas, ele também diz que, mesmo sabendo ser impossível nós seguimos tentando e é esse constante dar voltas em torno desse vazio que constitui a nossa experiência. O livro 'A passagem tensa dos corpos' seria então essa experiência de escrever o que não pode ser escrito através de um narrador que é, ele mesmo, pura letra.
O narrador tem mais uma peculiaridade: ele só se alimenta de restos. Migalhas de pão, pingos de bebida que caem no chão, tudo aquilo que o corpo humano tocou e não quis, ele come. Até o ato sexual para ele é resto, sua maior fantasia é lamber os fluidos da esposa do marido que morreu. E por isso vive cheio de fome. Ah, esqueci de falar: esse narrador está esperando numa casa que o pai morto seja enterrado porque é só a partir da nomeação da morte que ele pode viver mais um pouco. Mas a família se recusa a fazer isso e o morto fica na mesa apodrecendo enquanto o narrador ronda a vida da família esperando que algo aconteça. Há aí também a imagem simbólica de um luto que não é realizado e ao mesmo tempo, não, porque fiquei com a sensação que, na verdade, o pai era meio desnecessário para a família e se ele não é enterrado é porque ninguém percebeu que ele está morto.
Por fim, mas não menos importante, a narrativa é entremeada pelo que acredito serem casos reais de mortes. Parecem notícias recortadas de jornais que aparecem depois de um capítulo ou dois lembrando o que o livro diz no começo: a morte é o que funda a palavra e a civilização, ela está aí o tempo todo, negar a sua existência ou higienizá-la para que fique longe dos nossos olhos - prática muito comum hoje em dia - é aumentar consideravelmente a dose de angústia em nossa vida.
"Quanto mais ruídos advêm da boca mastigadora dos mortais, mais próximos nos colocamos dos porcos e de outros seres amigos do chão."
"Não se conhece o perigo de um pepino até ouvir sua trituração."
"O amor de seu futuro marido aumentará a cada refeição."
"Quando você acha que me casarei?
Amanhã mesmo converso com o padre.
E o noivo, mamãe?
Encontrar um noivo é tarefa sua, minha filha.
É difícil encontrar um bom noivo, mamãe.
Você é muito seletiva, minha filha."
"... de um homem que queira se casar com ela, que planeje a lua de mel em uma praia ensolarada, que sonhe com a compra de uma casa ampla
se possível, de um homem que a ame"
" Sabe-se que, mesmo em casamentos idealizados com a presença do noivo, é a mãe da noiva quem cuida de todas as decisões e conserta, na cerimônia alheia, os estragos e frustrações de sua própria cerimônia um buquê mais farto, um decote mais profundo, convidados menos inoportunos."
" Se devo me vestir como uma noiva, devo comer como uma noiva.
Está bem. Não obrigarei você a comer legumes."
"Tendo acompanhado muitos homens e mulheres em horas decisivas de suas existências, sei que toda porta fechada acoberta o exercício de um amor incomum."
Não coloborou muito com o sucesso da leitura o fato de ter lido Lavoura Arcaica pouco antes. Os dois trilham os caminho sufocantes do seio familiar, da morte, da memória enquanto claustro, mas Nassar, em toda sua pompa e virtuose, é muito mais feliz que Melo. A premissa de um fantasma/ente/a própria morte que relata seu processo é muito interesse, mas o livro nao é.
Deixando o tom machista do texto de lado, é interessante uma leitura que em parte resgata o clima simbolista mórbido e em parte é moderno na sua abordagem. Me pergunto se o autor leu Ítalo Calvino; este livro poderia complementar "Os nossos antepassados" pela trama fantástica, antítese na construção de personagens e discutiçã9 acerca da completude do ser humano. Dois seres encontrando-se na estrada da vida, em sentidos opostos. Como alcançar a completude sem abraçar a morte?