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Filhos da Degradação (Ordem Vermelha, #1)
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Fantasia #3 > Tópico 3 - O fio da espada + Epílogo - Filhos da Degradação

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message 1: by André Sposito (new)

André Sposito | 48 comments Mod
Tópico de discussão #3

Spoiler liberado até o final do livro


message 2: by Antonio Luiz (new)

Antonio Luiz M. C. Costa | 7 comments Em geral, gostei do livro. Usa de maneira bem original os tropos da fantasia errepegista, cria alguns personagens interessantes e trata de diversidade e questões sociais com naturalidade e sem preconceitos. De maneira geral, foi um bom entretenimento, as reflexões sobre o poder da narrativa e as metáforas políticas são atrevidas e provocantes e não me arrependi de ter investido meu tempo e dinheiro. Mas há reparos que quero fazer, que seguem pela ordem de importância.
Não fiquei satisfeito com abordagem do regime e da religião. Muita ênfase foi dada em descrevê-los como gritantemente injustos, perversos, cínicos e cruéis. Isso não me soa convincente e o tom maniqueísta não deixa entender como um sistema assim funcionaria. Há matanças e crueldades sem nexo e algumas cenas, como a das kaorsh aprisionadas para gerar clones da Una soam a sadismo gratuito ou pornô de tortura, porque não têm justificativa nem consequência para a trama. Para que métodos tão bizarros se as Unas são meras marionetes sem poderes especiais e, aliás, existiam antes de se criar a tal Mácula? Todo o aparato de Mácula, Centípede e Proghon parece mais voltado a chocar do que a fazer sentido ou ajudar a pensar sobre as realidades do poder.
As motivações dos rebeldes também nem sempre fazem sentido. Seria compreensível Yanisha, uma personagem relativamente privilegiada, decidir sacrificar a si mesma e sua esposa por uma vingança pessoal ou por uma longa militância com um grupo em cujos ideais acreditasse, mas não em prol de um povo que ela mesma despreza. Revoluções de verdade se apoiam em raízes profundas e bem espalhadas, mas aqui só se veem atitudes isoladas que se encontram por acaso. Por ser difícil e perigoso demais conspirar? Não acho, esse regime não parece tão competente em termos de repressão e vigilância. Há uma assassina de aluguel trabalhando à vontade e um militar, Ranakhar, não só apoia os rebeldes como leva junto seu destacamento.
Embora se perceba a tentativa de construir personagens fortes e originais, ela nem sempre dá certo. Às vezes, quando sua vontade, sentimentos, história e personalidade mais deveriam ditar suas atitudes, eles se portam como marionetes rasas. O anão Harun tem uma ambivalência intrigante, mas às vezes sai do caminho sem necessidade para obedecer ao clichê de anão avarento e resmunguento, como quando cobra a aposta de Aelian quando sua preocupação deveria ser a segurança da esposa e filho. Venoma, que poderia ser uma personagem fascinante, é usada como mero instrumento da trama – nada se fica sabendo de sua verdadeira história e personalidade, mesmo depois de se tornar amante do protagonista. O próprio Aelian cujo ponto de vista acompanhamos desde o começo, é mais instrumento da trama que protagonista. Embora mostre esperteza e engenho antes de se envolver na trama, parece quase sempre à mercê dos acontecimentos – e de visões que não parecem ter mais lógica do que a falta de ideia melhor de como fazer as revelações necessárias à trama. Apenas observa, obedece e sobrevive sem parecer evoluir por dentro e saber o que quer. Salvo com Ziggy e a família de Tom, não mostra sentimentos pelos aliados e a amante (e precisa ser empurrado para ir transar com ela). Os únicos momentos em que parece ter um propósito são o prólogo e o epílogo, mas não dá para imaginar como esse garoto imaturo e tíbio poderia ter-se tornado uma nova Aparição.
Há também incoerências na trama e na construção de mundo que às vezes confundem. Afinal, existe ou não homofobia nesse mundo? A certa altura, um vilão ameaça Raazi com alardear ser casada com outra mulher kaorsh, mas qual o sentido disso se ela mora com a esposa abertamente (e o mesmo parecia acontecer com os pais de Aelian), ninguém mais parece se incomodar com isso e o próprio regime e religião não desaprovam esse relacionamento?
Sei que uma linguagem simples é o que se espera deste tipo de aventura, mas sintaxe e vocabulário são mais pobres e convencionais do que o necessário. Por exemplo, tudo é “machucado”, desde pequenas contusões até golpes fatais de machado. E embora haja alguns achados divertidos como “Centípede”, “Betouro” e “Pâncreas do Grifo”, a maioria dos nomes de lugares, personagens, animais e conceitos poderiam ser mais criativos. Daria para fazer melhor do que “Vila A”, “Vila B” (o que, aliás, pressupõe uma maioria alfabetizada, o que não é o caso), “Balde”, “Poleiro”, “Segundo Bosque, “Assentamentos” e “Mercado Aberto”. Os conceitos de “kaorsh” e “sinfo” são muito interessantes, mas não daria para ter inventado nomes mais sugestivos? Por que “gnolls” se esses bichos (aliás, mal descritos) são tão diferentes de seus homônimos dos RPGs?
Como praticamente todo mundo, também achei o mito de origem no prólogo uma má ideia. Comprei e li o livro porque tinha visto resenhas instigantes, mas se tivesse simplesmente achado numa livraria e folheado as primeiras páginas, teria deixado de lado. Mais valia começar com Aelian voltando à cidade e jogar a lenda de Una no meio.


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