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Capitães da Areia
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Set/2017 * Capitães da Areia > Setembro/2017 * Capitães da Areia * Terminado / Possibilidade de Spoilers

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Joana Diniz (joaan_) | 286 comments O que acharam desse clássico moderno da literatura brasileira?
Capitães da Areia tem suas cenas polêmicas, não é mesmo...


André Caniato (vardamir) | 417 comments Terminei ontem e ainda tô meio apaixonado, sei lá. Queria ter lido esse livro antes na minha vida. Serve pra pensar em como as gente esquece dos clássicos brasileiros às vezes, né?


Raquel V (raquelvcc) | 370 comments Então, gente, esse livro foi difícil pra mim. Achei ele bonito? Sim. Os personagens me cativaram? Com certeza. Mas não consegui engolir tanto preconceito e, especialmente, tanto descaso com o tema consentimento/estupro. Sim, eu sabia que teriam coisas já datadas, sendo que esse livro foi publicado pela primeira vez em 1937. Mas gente, não!
Esse negócio de glorificar "deitar as negrinhas no areal" é muito triste!! Aquela cena que o Pedro Bala estupra a menina, e não só ele como claramente o próprio Jorge Amado não entendem a indignação dela é o fim! E a glorificação da "vida do malandro"? Nããão! Desculpa, não consigo achar isso aceitável, não consigo ver esse livro sendo lido como "importante" a não ser para discutir o desenvolvimento da cultura - e como ainda temos muito chão pela frente.
Consigo perceber porque ele foi muito importante na época dele - e até ainda relevante hoje quando falamos da desigualdade social e da pouca evolução que tivemos neste sentido. Mas nãããão :( Que esse livro não seja exemplo para ninguém de cultura brasileira! Esse livro é o que ainda tem de errado no Brasil. Preconceito racial se passando por elogio, machismo se passando por heroísmo, a mulher sendo representada somente ou como puta ou como santa mãe, o trabalho como algo só pra gente idiota, a luta entre o povo e os policiais (como se ninguém estivesse do mesmo lado, e como ambos os lados não fossem manipulados pelo poder) - ai, doeu ler esse livro.
Ele é lindo em várias partes. Chorei e me emocionei, em especial com a delicadeza da história do sem pernas. Mas ainda assim, foi duro.


Jessica Ohara | 148 comments Raquel wrote: "Então, gente, esse livro foi difícil pra mim. Achei ele bonito? Sim. Os personagens me cativaram? Com certeza. Mas não consegui engolir tanto preconceito e, especialmente, tanto descaso com o tema ..."

Pô, Raquel você definiu bem vários incômodos meus com esse livro, foi bem difícil ler e não ficar muito puta várias vezes, com várias coisas extremas e de claro preconceito, e completamente chocada em como os relatos eram colocados.
Mas até agora não sei se ele fez isso com uma intenção, na falta de uma palavra melhor, maldosa ou de retrato mesmo do que acontecia. Falo isso mais porque vivendo em um bairro bem as margens, tendo visto muitas situações do tipo do livro e sendo parte de um grupo étnico que sempre passou por essas coisas, não consigo deixar de pensar se não é realmente um descrição do que acontecia com a intenção de chocar, de mostrar do que as pessoas eram capazes. E de como o poder público tratava esses grupos, acho que isso ficou bem claro na parte da varíola, dos lazaretos.
E até entendo essa critica a forma como é vista a polícia, não sei, racionalmente a gente percebe que são todos manipulados pelo poder, mas isso não impede de odiá-los da mesma forma em um geral, de torná-los inimigos. Acho que consegui entender isso no livro, porque é exatamente o que eu passo pelos mesmos motivos, o legal é que dá pra ver há quanto tempo as estruturas de repressão conseguem se manter.
Devo dizer que paguei muito mico no transporte público em várias partes, mas a que mais me emocionou foi as crianças vendo o carrossel.
E a que mais me incomodou foi a de terem colocado a Dora, loura e branca, como a imagem do celestial.
Eu tenho que ler outro livro dele para ver se a minha teoria se confirma ou não.


André Caniato (vardamir) | 417 comments Êba, discussão!

Entendo completamente seu ponto, Raquel, e muitas dessas coisas me incomodaram também, mas não concordo com a sua colocação. É claro que posso estar completamente equivocado, sendo homem e branco, mas vamos lá.

A cena do Pedro Bala com a menina, em particular, também me incomodou demais... até que ela terminou e eu entendi que o autor não estava romantizando a coisa. Fiquei pensando se não pode ser coisa do narrador do seu livro? Mas I digress. Porque, pra mim, no jeito que a menina responde, no olhar feio dela, fica clara que a mensagem mais é de que aquilo é uma coisa QUE ACONTECE, por bem ou por mal, que pode ser feita por qualquer pessoa, "boa" ou "ruim", do que a de que é algo certo — tanto que, ao meu ver, o Pedro Bala, que nunca teve educação nem limites, "aprende" e não faz o mesmo com a namoradinha dele, mais tarde. Pelo que entendi quando fui ler sobre a criação da história, o Jorge Amado quis criar um retrato quase fiel da juventude e da população pobre baiana da época (ele foi dormir com meninos debaixo de um trapiche para entender melhor como funcionava a coisa toda). Entra aí a questão: é preciso cortar completamente as cenas fortes assim? Lembrando sempre que as discussões que acontecem hoje em dia nem passavam pelas cabeças das pessoas da época.

Sobre representar a cultura brasileira: cultura nem sempre reflete aspectos positivos da população, vide as touradas espanholas e a infibulação ritual em 27 países africanos. Cabe ao leitor ter o senso crítico de saber que o povo representado não é só aquilo ali.

Claro que não é um livro perfeito, e não é nem isso que estou tentando dizer, mas enxerguei as coisas de uma forma bem diferente.


Raquel V (raquelvcc) | 370 comments Jessica wrote: "Raquel wrote: "Então, gente, esse livro foi difícil pra mim. Achei ele bonito? Sim. Os personagens me cativaram? Com certeza. Mas não consegui engolir tanto preconceito e, especialmente, tanto desc..."

Pensei nisso também, Jessica, de ter que ler outro livro dele para ver se é isso mesmo ou não. Li Dona Flor e Seus Dois Maridos no colégio, e lembro de ter me incomodado com certas coisas que nem saberia dizer o que hoje (violência doméstica? Realmente não me lembro tão bem), mas também não sei se eu tinha uma mente suficientemente crítica naquela época para que certas coisas me chamassem a atenção.
Mas a razão que eu tratei muitas coisas como falhas, e não como críticas que o autor fazia - em especial a parte sobre consentimento/estupro - é como isso foi tratado do começo ao final, sem nenhuma ressalva (que podia ser feita pelo narrador que é 3ª pessoa), consequência ou sequer menção posterior.
Tanto na cena do estupro da menina pelo Pedro Bala, que o narrador fala que ela "se esquece no prazer" ou algo assim (oi? ela estava gritando que não e foi estupro anal, e ela sentiu prazer?Desculpa, não), quanto depois nas mil vezes que se menciona "deitar as negrinhas" (que pra mim fica claro que ele está falando de estupro e de sexo consentido como se fossem a mesma coisa quando ele explica que o Sem Pernas nunca tinha conseguido sem ser a força) ou na maneira que eles explicam porque não iriam estuprar a Dora, mesmo "tendo direito".
O episódio do estupro do Pedro Bala, eu senti, teve a ver só com o Pedro Bala. foi um recurso de enredo para mostrar o quanto ele estava mal, o quanto o dia dele tinha sido ruim - a menina não fez a menor diferença depois. Isso não ficou na cabeça dele, não fez diferença quando ele começou a amar (a não ser apara pensar que por a Dora ser tão pura ele nem queria estuprar ela, que amor!), enfim, aquilo não foi nada para ele. Ficou parecendo que para certas mulheres é OK estas coisas acontecerem, mas outras não, sabe?
Pra mim fica muito claro a gigante diferença entre a maneira que ele trata aquilo que ele quer mostrar como uma crítica (como à desigualdade social) e aquilo que ele mostra simplesmente como uma coisa normal, porque ele não acha nada demais nisso mesmo. Um exemplo é a brutalidade policial, que ao falar dela cruamente ainda fica claro como o autor está indignado; ou os lazaretos, que fica claro como o autor acha errado aquilo acontecer. Eu só peço consequências para atos que tem relevância, mesmo que só consequências emocionais.
Aliás, acho incríveis as críticas que percebi - só não perdoo as falhas.
Eu estou lendo agora um livro que chama The Just City, da Jo Walton, e foi um dos maiores contrastes literários da minha vida ler ele depois de Capitães da Areia. Claro, esse livro é bem recente e neste sentido incomparável, mas ele se passa em um (modelo de) civilização da antiguidade, e várias coisas relacionadas à consentimento e estupro acontecem - mas são contadas de uma posição tão mais claramente crítica que foi um bálsamo pro meu coração. Nele também se fala de liberdade - um dos temas que achei lindo em Capitães da Areia - mas de liberdade para todos, homens e mulheres.


Jessica Ohara | 148 comments Eu também fiquei bem nervosa nas partes que você levantou, por, né, motivos óbvios. E acho que o que me deixa mais nessa dúvida é a escrita incrível de Jorge Amado que não sei se ele está entrando na cabeça dos próprios capitães e personagens, nunca saindo desse ambiente mesmo em terceira pessoa ou se ele trata com descaso mesmo, o que é uma possibilidade bem real.
Eu acho que pegar de um livro de hoje para comparar, acho que seja um pouco anacronismo sim, mas sem querer perdoar ninguém (pq eu já estou sem querer perdoar faz tempo). Por isso mesmo que quando li o que você escreveu não consegui não pensar em O cortiço(beijos, Aluízio)que foi escrito antes, com críticas muito parecidas, com um final muito menos otimista, mas com uma abordagem bem diferente. Então, não é como se na época já não fosse possível ser mais crítico, e mesmo entendendo que eles falam de realidades sociais bem diferentes(ah, nem tanto né), ainda mostram muitos problemas em comum.
Acho que eu tenho que ler outro dele para ver mesmo, mas já com muitas suspeitas.


Raquel V (raquelvcc) | 370 comments André wrote: "Êba, discussão!

Entendo completamente seu ponto, Raquel, e muitas dessas coisas me incomodaram também, mas não concordo com a sua colocação. É claro que posso estar completamente equivocado, sendo..."


André, só queria registrar que eu também posso estar errada - no sentido de estar pedindo demais desta leitura em particular por ser um assunto que mexe tanto comigo. Ainda assim, fico feliz em viver em uma sociedade que já não trata esse tipo de coisa como "mimimi" (pelo menos não a maioria sensata da população). Era só isso...


message 9: by André (last edited Oct 03, 2017 01:25AM) (new) - rated it 5 stars

André Caniato (vardamir) | 417 comments Raquel wrote: "André, só queria registrar que eu também posso estar errada - no sentido de estar pedindo demais desta leitura em particular por ser um assunto que mexe tanto comigo..."

Eu entendo, Rach! E sim, isso é muito bom. Poder discutir esse tipo de coisa como uma reclamação séria é sempre válido.


Maíra Protasio (mairaprotasio) | 12 comments Eita, nem tinha visto que tinha dado tanta discussão por aqui!
Eu gostei bastante do livro e fiquei incomodada também, mas acho que fiquei mais incomodada mesmo é com o quanto de verdade tem nele e o quanto ele retrata uma realidade que não parece ter melhorado nada nos últimos 80 anos. Essas partes, mesmo a do estupro, poderiam ter uma problematização maior? Claro. Mas não acho que ele está glorificando nada não. Acho que fica bem claro que aquilo é uma realidade complexa, e o quanto tem de cultura de estupro e de certos falsos dualismos em cada um de nós, e os personagens não fogem disso. Para mim, o mais legal foi justamente o quanto o livro foge de tratar os Capitães da Areia como anjos ou demônios.
Pelo menos foi essa a percepção que tive ao logo da leitura.


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