LITERARY HURRICANE discussion

The City & the City
This topic is about The City & the City
13 views
Mar/2016 * The City & the City > Março/2016 * The City & the City * Terminado / Possibilidade de spoilers

Comments Showing 1-9 of 9 (9 new)    post a comment »
dateDown arrow    newest »

Joana Diniz (joaan_) | 317 comments E aí? As reviravoltas pegaram vocês?
O que acharam?


message 2: by Márton (new) - added it

Márton (martdiv) | 12 comments (Começo dizendo que li o livro em inglês, portanto alguns nomes podem estar trocados em relação à tradução)
O livro é muito interessante. Tenho formação de urbanista, por isso a descrição da cidade acaba tendo todo um gosto diferenciado para mim.
Inicia-se como um livro de mistério Noir, bem ambientado. Enquanto o mistério vai se desenrolando, vamos vendo que o real tema do livro não é o crime, mas o local que ele acontece. O protagonista vai desvendando o crime e, ao mesmo tempo, desvendando a cidade onde vive ao vê-la por uma perspectiva nova.
O livro é uma boa demonstração do que faz uma identidade nacional. Mais que a localização geográfica da cidade, o que diferencia uma cultura de outra são os costumes, tradições, linguajar e o estilo de vida de sua população. Essa ideia é extrapolada neste livro, onde o autor coloca as duas cidades no mesmo local e, apesar disso, mostram-se duas cidades diferentes.
Quando Borlú vai a Ul Qoma, essa visão se acentua, com o protagonista vendo os locais que ele já conhece, porém pela ótica de outra cultura. Os mesmos locais, outra identidade nacional.
Também é interessante a ideia de não vermos outra cidade. Me parece uma representação de nossas cidades atualmente, onde escolhemos o que queremos e não queremos ver como parte de nossas cidades. Escolhemos não ver os mendigos, os prédios decrépitos, as vidas na favela, a violência do estado ou os grandes magnatas e acabamos por ignorar uma cidade que existe neste mesmo local que vivemos e olhamos todos os dias, vendo apenas uma versão filtrada de nosso lar.
Não sei se é intenção do autor, mas essa ideia remete também às formas de iteração que temos hoje em dia, onde acabamos olhando e prestando atenção apenas aos que tem as mesmas ideias que nós e ignorando as ideias contrárias. Podemos ver isso, no mundo real, no Facebook e outras mídias sociais por exemplo, onde não apenas bloqueamos as pessoas que tem visões e culturas diferentes das nossas, como existem algorítimos que fazem isso sem nem mesmo sabermos, filtrando o discordante e gerando uma representação mais homogênea das opiniões do resto da sociedade.
Essa ideia de uma cidade oculta o autor também utiliza em seu romance Rei Rato, onde temos também o protagonista redescobrindo Londres, onde viveu toda sua vida, por uma nova ótica.
O BREACH, órgão que regula a divisão imaginária entre as duas cidades também adiciona a esse cenário. Vistos como lendas e entidades oniscientes e onipresentes, são apenas humanos normais que não são vistos normalmente pelos cidadãos de nenhuma das duas cidades, simplesmente porque não parecem estar no lugar certo. Qualquer ato estranho é imaginado como algo da cidade oposta e, portanto ignorado.
Também me parece uma alegoria às forças 'invisíveis' que nos forçam em um sistema moral talvez não concordemos, mas é vista como uma força que não pode ser derrotada por seu caráter onipotente. Me parece uma referência à opinião pública e o policiamento moral que é feito numa sociedade em que todos podem ver o que todos estão fazendo, tornando-se um ente gigantesco meramente pelo fato de as pessoas o colocarem nesta posição de divindade quando na verdade são meramente outras pessoas com as mesmas limitações que cada indivíduo.
Essa mesma referência poderia ser aplicada à diversas outras 'entidades' onipresentes, fictícias ou não, que regulam nossa vida de sociedade, desde uma sociedade para proteger um segredo milenar (vide o Priorado de Sião, em Código DaVinci, colocada como uma sociedade quase mágica em suas possibilidades, mesmo sendo descritas apenas como homens) até o nosso sistema político real, com o governo sendo muitas vezes visto como uma entidade toda poderosa, porém só existindo devido à validação que é dada ao mesmo pelo povo.
No fim, é um livro fictício muito bom, bem escrito e que, analisando-se bem, dá margem à uma série de interpretações alegóricas sobre muitos aspectos do mundo real.


Jessica Ohara | 163 comments Márton wrote: "Também é interessante a ideia de não vermos outra cidade. Me parece uma representação de nossas cidades atualmente, onde escolhemos o que queremos e não queremos ver como parte de nossas cidades. Escolhemos não ver os mendigos, os prédios decrépitos, as vidas na favela, a violência do estado ou os grandes magnatas e acabamos por ignorar uma cidade que existe neste mesmo local que vivemos e olhamos todos os dias, vendo apenas uma versão filtrada de nosso lar.
Não sei se é intenção do autor, mas essa ideia remete também às formas de iteração que temos hoje em dia, onde acabamos olhando e prestando atenção apenas aos que tem as mesmas ideias que nós e ignorando as ideias contrárias. Podemos ver isso, no mundo real, no Facebook e outras mídias sociais por exemplo, onde não apenas bloqueamos as pessoas que tem visões e culturas diferentes das nossas, como existem algorítimos que fazem isso sem nem mesmo sabermos, filtrando o discordante e gerando uma representação mais homogênea das opiniões do resto da sociedade.
Essa ideia de uma cidade oculta o autor também utiliza em seu romance Rei Rato, onde temos também o protagonista redescobrindo Londres, onde viveu toda sua vida, por uma nova ótica.


Eu também fiquei com isso na cabeça. Acho que foi essa a intenção do autor mesmo, mostrar ao máximo o quanto é possível ignorar a existência do outro e valorizar o seu próprio lugar.
O legal é que ele faz uma confusão na sua mente, primeiro é sobre o crime, depois é sobre a terceira cidade, depois é sobre fraude e por fim é sobre o crime hahaha
Nunca foi posto em dúvida a legalidade da existência das duas cidades, o mais interessante é que ao ler a sinopse é de se esperar que o protagonista seja do tipo que vai abraçar a ideia de uma unificação, ser um revoltado e tal. Mas isso nunca acontece, o autor não trabalha com lugares comuns.


message 4: by Márton (new) - added it

Márton (martdiv) | 12 comments Pensei em algo interessante agora a pouco, essa cidade poderia muito bem ser Berlin antes da queda da URSS, uma cidade dividida em duas nações. Imagino que os moradores de Berlin, no período entre o final da segunda guerra e a construção do muro, tenham vivido uma experiência bem semelhante.


Jessica Ohara | 163 comments Márton wrote: "Pensei em algo interessante agora a pouco, essa cidade poderia muito bem ser Berlin antes da queda da URSS, uma cidade dividida em duas nações. Imagino que os moradores de Berlin, no período entre ..."

Simmmmm, isso faz bastante sentido.
E me lembra um pouco daquele filme Adeus, Lênin, da questão da identidade de nação está na roupa, nos objetos e na ideia que você faz deles como lugar de pertencimento, e como isso te ajuda a se localizar mesmo que tudo pareça diferente. Que foi o que você apontou sobre como saber quem é de qual lugar.


Joana Diniz (joaan_) | 317 comments Quando a Jessica me disse que nada ia me preparar pro final do livro... foi a maior verdade e fiquei em posição fetal... Nenhum clichê ocorrido, parabéns, sr. Miéville!

Nossa, vocês falaram tudo!

Eu me senti mal por me identificar com o "desver" e "desentir": eu faço isso, acho que no fundo todo mundo faz. E quando o Ashil fala que "desver" e "desentir" não funcionam, mas que acabam funcionando porque as pessoas das duas cidades nunca vão admitir que não funciona... é muito real e é horrível e é o caminho mais fácil.
Adorei o livro, adorei os personagens, tudo muito inteligente do começo ao fim. Quero reler em inglês em algum futuro próximo - e vou ficar de olho no que o autor escreve, pois UAU!


André Caniato (vardamir) | 421 comments Vocês já falaram tudo o que eu gostaria de falar, mas acho que tenho uma coisinha pra dizer (sim, depois de todo esse tempo... perdão): China Miéville é genial. Já era apaixonado por esse homem por causa de Estação Perdido (em breve nas melhores livrarias), e não acho que Cidade fez com que eu o amasse mais porque (1) é impossível e (2) a construção de tudo em Perdido é ainda mais incrível, mas, com certeza, consolidou esse amor todo. É o tipo de livro que eu não consigo ler rápido (é claro que não demorei tanto pra ler Perdido, Cidade foi um caso absurdo e à parte) porque tem tantos detalhes, é tudo tão bem pensado! As coisas vão acontecendo e eu vou--uau!

Quero ver a tradução, quero ver como foi a adaptação de tudo. Sem falar que preciso reler um dia e ver se as pistas sobre o crime--que não é tão importante quanto a ambientação, mas ainda é bastante bem pensado--estão espalhadas pela história como imagino que estejam.


André Caniato (vardamir) | 421 comments Márton wrote: "(Começo dizendo que li o livro em inglês, portanto alguns nomes podem estar trocados em relação à tradução)
O livro é muito interessante. Tenho formação de urbanista, por isso a descrição da cidade..."


Análise excelente :)


message 9: by Raquel (new) - added it

Raquel V (raquelvcc) | 444 comments Eu tinha escrito um super texto (porque tenho muitas coisas para falar sobre esse livro), mas poerdi tudo sem querer. Oh, well...

A coisa que eu mais queria dizer é que a discussão e análise que vocês trouxeram foi para mim muito mais interessante que o livro em si.

Eu admiro a a tolerância (e até o gosto) que vocês tiveram pelo autor ter deixado a gente confuso de propósito. Eu não tenho tamanha tolerância. A confusão realmente estragou a minha experiência de leitura, e eu particularmente achei uma ferramenta literária descenessária. A situação já é confusa, e deliberadamente não dar informações básicas sobre esse mundo me pareceu um truque barato. Acho que tirou muito domeu interesse por ele (o que é uma pena, porque adorei a premissa).

Achei a análise de vocês traçando um paralelo entre o "desver" do livro e a maneira que ignoramos as coisas no nosso mundo muito muito interessante. Inclusive foi porque li essa análise (exatamente para me dar motivação) que não larguei o livro no meio. Essa hora eu já tinha parado de esperar uma explicação sobre o porque o mundo é assim,ou porque eles tem regras tão rigorosas quanto ao desver. Passei a esperar então que o livro não fosse ser sobre o mistério (que jánão me interessava em nada), mas que houvesse algum tipo de comentário social.
O mistério teve mesmo muitos plot twists, e não imaginava esse desfecho. Mas fiquei extremamente decepcionada com o final.
Me ajudem a entender isso: então se o desver no livro é um paralelo com o nosso próprio desver, o final indica que nós temos mesmo que ignorar as coisas que acontecem na nossa sociedade, para ela não entrar em caos? O nosso protagonista, que colocou em risco a sua segurança e liberdade pois não conseguia deixar de ver, agora vira um agente que força os outros a ignorar? Desculpa, não entendi!! Achei sem sentido e fez o livro todo me parecer desnecessário.
Adoraria ter gostado do livro como vocês, mas eu realmente não gostei. Acho que possivelmente isso tem a ver com uma teoria que estou testando quanto a mim mesma: eu gosto de boas estórias, mas não necessáriamente de literatura. Deixa eu explicar: se o livro for lindo e bem escrito, mas a estória não fizer sentido pra mim, não vou gostar. Estética não é o que eu procuro em um livro, sentimento é. Mas claro que sentimento é algo subjetivo, então...


back to top