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Z: a continuação

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message 1: by Manuel (new)

Manuel Alves Este tópico serve para apresentar (com periodicidade incerta) excertos do primeiro livro (que está a ser escrito) da trilogia que contará a história completa de Z, o personagem apresentado no conto:
Z by Manuel Alves

Os excertos são retirados do primeiro rascunho e, como não representam necessariamente a versão final do texto, estão abertos a debate para críticas, opiniões e sugestões de quem tiver interesse em fazer qualquer uma dessas análises. Os excertos são aqui apresentados por ordem aleatória, que não tem de coincidir com o seguimento natural da história, e tentarei evitar spoilers irremediáveis (claro :D).

Neste excerto, apresento Marcus, um dos principais antagonistas de Z no primeiro livro da trilogia.

Excerto:

"Marcus cruzou olhares com o homem. Ouviu e aceitou as ordens, mas nem todas as ordens eram claras.
— Preciso de um esclarecimento, senhor — disse ele.
O homem arqueou uma sobrancelha, sem grande disposição para esclarecer ordens que considerava perfeitamente claras. Voltou-se para a parede de vidro e ficou num silêncio pensativo, dividido entre a observação dos riscos luminosos dos veículos que riscavam as ruas lá em baixo e dos que deixavam trilhos incandescentes no céu, centenas de metros acima do limite dos edifícios.
— O meu tempo é escasso, major — disse ele.
— É um esclarecimento imprescindível, senhor.
— Fale.
— Como deverei interpretar a indicação de que o alvo não pode ser capturado vivo?
O homem voltou-se para o major e sentou-se no cadeirão por trás da secretária.
— Onde está a necessidade de esclarecimento, major?
— Seria preferível que me fosse transmitida uma ordem com sentido directo e inequívoco, senhor. Estaria mais ciente da amplitude das minhas ordens se me fossem explicadas as razões pelas quais não querem que o alvo seja capturado vivo.
O homem esticou um sorriso de quem sabia mais segredos do que aqueles que pretendia revelar.
— Major, não é uma questão de quereres. E a razão é apenas uma: o alvo não pode ser capturado vivo, porque se trata de uma impossibilidade funcional.
— Senhor…?
— Impossível, major. Irrealizável. Impraticável. Inexequível. Inexecutável. Escolha o adjectivo da sua preferência. Directa e objectivamente, não pode ser feito.
— Acredita mesmo nisso, senhor?
— Major, é importante que entenda uma coisa; extremamente importante.
Marcus esperou uns instantes pelo esclarecimento. O homem manteve um silêncio paciente de quem aguardava a pergunta óbvia. Era em situações semelhantes que Marcus se lembrava sempre das razões pelas quais detestava lidar directamente com os homens da Companhia.
— O quê, senhor?
O homem esboçou um sorriso discreto mas visivelmente satisfeito. Assentou a mão aberta sobre um rectângulo de vidro na superfície da secretária, através do qual se via a capa de um livro antigo preservado em vácuo.
— A Arte da Guerra — disse ele. — O major está familiarizado com os ensinamentos de Sun Tzu?
Marcus ruminou a vontade de dizer ao homem para se deixar de rodeios inúteis. Tipos como aquele gostavam sempre de se pôr com pretensões teatrais sem real interesse ou finalidade, que serviam apenas para lhes alimentar o ego com a ilusão de algum valor argumentativo ou filosófico.
— É leitura obrigatória na academia militar — disse Marcus.
O homem tocou duas vezes com o indicador na superfície transparente e deu as mãos sobre a mesa.
— O segredo, a dissimulação e a surpresa — disse ele. — Qualidades de um estratega irrepreensível. Numa comparação grosseira com a capacidade de antecipação do maior estratega que já existiu, este alvo consegue calcular a trajectória da bala antes de o projéctil ser sequer fabricado. Eu poderia dizer-lhe que é algo como o major nunca encontrou, mas não seria uma afirmação adequada. Em verdade, é como tudo o que o major já encontrou, mas com uma grandeza de escala cósmica. De todas as vezes em que conseguimos chegar perto do alvo, foi apenas porque ele permitiu. De todas as vezes, major. Sem qualquer excepção.
— Estou a ver.
— Espero honestamente que sim.
Marcus engoliu a insinuação que duvidava da sua capacidade de entendimento.
— E o Professor? — disse ele.
— O que tem?
— Onde é que ele se encaixa em tudo isto?
O homem afastou as mãos e apoiou-as nos braços do cadeirão.
— O Professor é uma peça difícil de encaixar onde quer que seja — disse ele. — Costumamos encaixá-lo onde é necessário.
— Entendo, senhor. Mas a minha pergunta mantém-se sem resposta.
O homem levantou-se e voltou a encarar as luzes agitadas da cidade através da parede de vidro.
— Enigmas — disse ele. — Por mais completas que se apresentem, há respostas que, em virtude da natureza imprecisa daquilo que esclarecem, permanecem sempre vagas. O Professor é, se empregarmos uma simbologia adequada às circunstâncias, o pai do alvo.
Marcus aceitou mais uma resposta com falta de objectividade, como se estivesse perfeitamente esclarecido. Se quisesse respostas concretas teria de ser ele mesmo a investigar o Professor.
— Entendo — disse Marcus. — É por essa razão que ele pretende capturá-lo vivo?
— Não — disse o homem, com uma secura de ponto final.
— Posso saber a razão?
— Não — disse o homem, numa repetição perfeita da resposta anterior.
Marcus focou algum ponto na nuca do homem. Das sete vértebras cervicais, três eram visíveis acima do colarinho. Calculou a força necessária para atingir a C3 com um golpe de mão, de modo a usar o osso como lâmina para seccionar os nervos da medula espinal. A satisfação de transformar o tipo num boneco de trapos, do pescoço para baixo, não justificaria as consequências.
— O senhor sabe a razão? — disse ele.
O homem voltou-se e encarou o major, com pouca paciência para jogos mentais que não fossem criados por ele e nenhum apreço para desafios da cadeia de comando.
— Tem as suas ordens, major — disse ele. — Espero cumprimento exemplar."


Isabel Pina Manuel, desconhecia que o "Z" estava a evoluir para uma trilogia, fico muito agradada em saber disso, porque afinal é o protagonista de um dos meus contos preferidos da "Antologia de Contos Fantásticos". Acho engraçada esta tua ideia de cederes com "democracia" excertos para opiniões e sugestões alheias, e estarei atenta a outras publicações, para evitar precipitações minhas num ou outro comentário (positivo) que já se me oferece fazer... Preciso de ler mais bocadinhos... :)


message 3: by Manuel (new)

Manuel Alves Olá, Isabel.

Ainda há minutos estive a acrescentar mais umas notas ao esqueleto da trilogia. :)

A finalidade deste tópico é mesmo (para eu) avaliar as impressões dos leitores a partir de excertos (bastante) limitados. E como a divulgação dos excertos não seguirá necessariamente a ordem pela qual se encontrarão na versão final (até poderão nem chegar a ser incluídos), estás à vontade para partilhar as tuas considerações acerca deste primeiro excerto antes de leres qualquer outro.
Como, através dos excertos aqui eventualmente revelados, os leitores não terão a percepção global do enredo, também não precisas de te preocupar com "precipitações" pois, afinal de contas, estarás a avaliar informação incompleta (estou ciente dos riscos de expor informação incompleta para consideração).
Obviamente que é sempre bom conseguir comentários positivos mas, aqui, a minha preferência vai para comentários honestos. Cada um pode fazer as considerações que entender, desde que sejam devidamente justificadas e afastadas de qualquer intenção de ofensa gratuita (vá-se lá saber que motivo possa haver para isso :D).
Além disso, os excertos aqui apresentados serão retirados do primeiro rascunho, o que significa que estão destinados a revisão minha, independentemente de quaisquer comentários de terceiros.
Por isso, como se diz em certos meios: podes mandar chumbo. :D


Isabel Pina Muito bem, gosto da postura democrática "ma non troppo", então lá vai (o criador do "Zê" merece :)). É muito acertada a referência ao Sun Tzu, é uma obra intemporal, e ainda por cima parece estar na moda (pelo menos tem servido muito bem a gestão ultimamente), aproveitando os ensinamentos, se calhar não daria assim de mão tão beijada esta referência (o Marcus ainda não a merece), deixaria mais para a frente na história, se fizesse a opção de manter, então aproveitaria para explorar um pouco mais pensamentos do professor do género daqueles, que à distância de um piscar de olhos o podia desfazer, e arranjar outra forma de dar a entender isso mesmo ao adversario (tenho de pensar um pouco melhor nisto, mas é por aqui) sem falar diretamente na referência... vou estar atenta e pensar um bocadinho melhor nisto :)


message 5: by Manuel (new)

Manuel Alves Geralmente, vou ler as opiniões que aqui surgirem sem fazer grandes considerações no sentido de esclarecer se quem comenta se aproxima ou afasta daquilo que realmente está na história (mas não aqui, neste tópico). No entanto, de vez em quando, posso comentar algum detalhe de um ou outro comentário, como por exemplo, no teu, a referência do Sun Tzu. Quanto à tua impressão de que poderá ser de mão beijada (segundo a informação limitada no excerto, claro) relembro apenas o que já disse: os excertos não são necessariamente apresentados pela ordem em que surgem na história (nada te garante que a referência não surge na continuidade de uma acção anterior... e, por enquanto, vais continuar sem saber XD).
Um bom comentário, para começar. ;)

E mais? :D


Isabel Pina Opah, um desafio... e logo dos que gosto, pouca informação, e não negociável, muito bem :) Alem de que gozo do privilégio da imparcialidade, pouco ou nada sei, por isso até posso emprestar um olhar muito "fora" à coisa. Como gostei muito da referência Sun Tzu, e assumindo que é mesmo intencional e objetiva, e sem metaforas, pode brincar-se até com alguma pedagogia do mestre da guerra. Assim, na parte em que parece que o Marcus oferece resistêncià à ordem explicita e inequívoca que lhe havia sido dada, e revela até algum desrespeito por este senhor da guerra, e já que o "povo" (no caso, eu) está a ser ouvido, eu exploraria a coisa desta forma; colocaria esta fala à personagem: "Para Sun Tzu a guerra era uma questão de vida ou morte; há um episodio com as concubinas do rei; Sun Tzu fez ver ao Rei que as mulheres poderiam ser treinadas como uma força militar, e nomeou as duas concubinas mais antigas como lideres de pelotão. De seguida disse às mulheres que iriam supervisionar a disciplina nas respetivas unidades. Mas quando Sun Tzu ordenou que o exercício começasse, as mulheres simplesmente começaram a rir. Então ele referiu que estava certo, e que talvez as suas instruções não tivessem sido claras, e repetiu as ordens, mas desta vez de uma forma mais clara e simples: disse-lhes que ao soar dos tambores, deveriam reunir como faziam os soldados com lanças e espadas, e ficar em formação, e mais uma vez as concubinas riram. Sun Tzu disse, que se as ordens não eram claras, então a culpa seria do general pelos soldados não terem obedecido, mas se as ordens eram claras (e tinham de facto sido claras) então a culpa seria dos oficiais subordinados se as ordens não fossem cumpridas, e só havia uma maneira de Sun Tzu convencer as concubinas de que realmente falava a sério, e sem qualquer hesitação diante de todas as outras mulheres, e para desgosto do rei, matou as duas lideres. Nomeou duas novas lideres, e daí em diante as mulheres não tiveram mais duvidas nas ordens recebidas. E acrescentaria, e agora resta alguma duvida na ordem que já havia dado? Ao que Marcus respondería: Não." Manuel, desculpa o atrevimento, até porque gostei muito do excerto, e estou mesmo curiosa acerca do próximo... :)


message 7: by Manuel (new)

Manuel Alves Ora aí está uma bela consideração de algo que poderia perfeitamente fazer parte da história. :)
Não vou revelar aqui se há, entre o Marcus e o homem da Companhia (ou quaisquer outras personagens), debates acerca de passagens concretas dos ensinamentos de Sun Tzu, e muito menos direi se esse belo exemplo que avançaste estará presente ou não. Como disse antes, há um contexto para a referência literária e será apenas revelado (e entendido) através da leitura completa do livro. Portanto, quanto a isso, terás de esperar pela publicação para saberes. :)

Não tens de te desculpar por dares opiniões e sugestões. Eu pedi ambas. ;)


Isabel Pina Acho muito bem que continue assim, e até sou eu que não quero revelações por agora, não digas, não contes, não reveles... eu quero ser surpreendida com as descobertas desta leitura, quando a história estiver pronta :) Mas o que me referia lá atrás era, querer ler outro excerto, ou rascunho (se tu entenderes, partilhar mais alguma coisa, claro). E por agora, o que me está a perturbar (no bom sentido) é o alvo de quem eles falam... vou pensar "carinhosamente" neste elemnto ;)


message 9: by Manuel (new)

Manuel Alves Em coisas deste género torna-se um problema escolher excertos que possam ser divulgados sem revelar demasiado. O que vou tentar fazer é escolher excertos que apresentem as personagens, e um pouco das suas personalidades, sem revelar muito do enredo. Quando me decidir quanto ao próximo excerto, virá directo para aqui. :)

Quanto ao alvo... por vezes, as circunstância viram o bico ao prego. ;)


Isabel Pina Manuel, váselásaberporquê, não tenho qualquer dúvida dos papeis que desempenhamos aqui, tu és o criador da obra, portanto o seu legítimo dono, e eu sou a leitora, naquele papel interativo da descoberta à medida que vai lendo, aproveitando para "viajar" um pouco no campo das infinitas possibilidades, com base nos elementos que vais apresentando, para seguramente num futuro qualquer ser surpreendida pela positiva (quando a obra estiver pronta), e verificar que afinal não era nada daquilo que antecipava... por mim, podemos ficar aqui a debater este mesmo excerto por mais alguns "posts", pois há matéria de sobra para derivas minhas... e por exemplo o alvo, é uma delas, e agrada-me bastante que haja um twist naquela aparente facilidade da sua captura, se não vejamos, pegando nos "i`s" todos desta desta fala "— Impossível, major. Irrealizável. Impraticável. Inexequível. Inexecutável" faltou talvez aquele adjetivo mais importante: o alvo é também muito Inteligente... e para já é só, até porque este alvo pode bem mover-se noutra dimensão ;)


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