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As brasas by Sándor Márai
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Jan 03, 2010

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bookshelves: literatura, tempo-livre
Recommended to Pedro by: Rodrigo e Olga
Read in January, 2010 — I own a copy

Tive três motivações para ler “As Brasas”: a primeira, uma dupla recomendação de um casal. A segunda, o fato de ser o único livro analisado por Maria Rita Kehl no seu ótimo estudo sobre ressentimento que eu ainda não havia lido. Mas havia uma terceira: sempre me disseram que era um romance sobre a amizade, este laço ambíguo, tão confortante quanto socialmente pernicioso.

E não me decepcionei, pois é, de fato, um belo livro.

E, apesar de ser uma tradução da tradução (do italiano), há algumas passagens encantadoras. Sobre o internato militar onde estudaram Henrik e Konrad, os protagonistas do romance. “No colégio, onde eram educados quatrocentos garotos, reinava um silêncio semelhante ao existente dentro de uma bomba um minuto antes da explosão” (p.31). Ou, ainda, na mesma página: “(...) havia aristocratas de dez anos de idade, de olhos azuis, fisionomia cansada e olhar perdido no vazio, como se seus antepassados já tivessem visto tudo aquilo no lugar deles”. Ou sobre a relação entre os dois protagonistas, ainda meninos: “Só somos capazes de dominar totalmente o outro se conseguimos conhecer, entender e desprezar com grande tato aquele que terá de se dobrar a nós” (p.51). Atente-se para o “grande tato”. Já no encontro dos dois, mais de quarenta anos depois da fuga de Konrad para os Trópicos, um diálogo deliciosamente irônico: “É, os trópicos são terríveis”, repetiu Konrad, ´pessoas como nós não os suportamos. Debilitam as forças, consomem o organismo. Matam alguma coisa dentro dos homens”. O velho Henrik não deixa quicar: “Você foi para lá”, perguntou o general com voz inexpressiva e ar displicente, para matar alguma coisa dentro de si?” (p.64). Só para citar mais uma, que dá título ao romance (em italiano e em português): “Uma paixão que o tempo apenas atenuou sem conseguir extinguir suas brasas. Por que deveríamos esperar algo diferente dos outros homens? E nós dois, que somos velhos e sensatos e que chegamos ao fim de nossas vidas, também estamos sedentos de vingança...vingança contra quem?” (p.141).

Todos estes trechos têm três locutores: o narrador, Konrad e Henrik. O narrador predomina na primeira parte do livro, destacável, sobretudo, em sua reconstrução de ambientes. Antes de assistir impotente ao monólogo em duo de Henrik e Konrad, o leitor conhece o mundo em que a amizade de ambos ainda existia e respirava: o mundo finado do Império Austro-Húngaro, escrito em tom nostálgico, e, diria até, enlutado. O próprio narrador parece, em suas primorosas descrições da antiga e idealizada Viena, tornar presente este passado.
O narrador, porém, deixa o romance de lado e passa a mediar, de maneira tíbia, a conversa entre Konrad e Henrik.
Konrad era um jovem galego que entra na academia militar. Dono de poucos recursos materiais e vastos recursos artísticos, Konrad manteve, com Henrik, uma clara relação de poder, suscitando nele, aparentemente, sentimentos “homoeróticos”. Henrik é de família tradicional do Império. Descobrimos, lentamente, camada a camada, que Konrad traiu o amigo com sua mulher, Krizstina, tentou mata-lo e fugiu para a Malásia e, depois, para a Inglaterra. O reencontro dá-se quarenta e um anos depois da tentativa de homicídio.
Henrik viveu seus quarenta anos esperando pelo momento da volta de Konrad, adiando sua vida pelo evento que finalmente ocorre. E ele fala sem parar. Faz uma análise pronta de tudo, tem opiniões definitivas, e algumas poucas dúvidas que são retóricas – ele sequer precisa saber das respostas. Tudo tão definitivo que fiquei a imaginar que, no fundo, a traição era outra: Henrik não perdoou Konrad por amá-lo, e não por Krisztina tê-lo traído. A traição não foi de Krisztina, mas de Konrad.
É um romance sobre ressentimento, sobre vingança, sobre uma vida que não se liberta do passado.
É bonito, mas, por vezes, algo afetado na linguagem. Será que o longo monólogo do livro, nos capítulos 13 e 14, são o ápice da inverossimilhança, ou será que um discurso ressentido é sempre rico em detalhes e extremamente bem acabado, inclusive estilisitcamente?
Uma outra coisa: caberia notar que o narrador não é o autor. Esta divisão interessante do romance é curiosa, pois o narrador some para dar vez aos dois personagens centrais, sendo que com um deles parece-me que o autor se confunde, a saber, Henrik.
E, claro, o mais interessante, é que podemos saber detalhes da história: mas não sobre a amizade. Ou então teria razão Henrik/Márai: é uma paixão, tão grandiosa, profunda e desumana como qualquer outra. (p.162).

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Reading Progress

01/03/2010 page 55
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