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O Que Vemos Quando Lemos
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"O Que Vemos Quando Lemos" (2014) é um livro interessante mas que tem de ser lido com muito espírito crítico, algo que não me parece ao alcance dos alunos do 9º ano, a quem o livro é recomendado em Portugal. A razão não se reduz apenas à falta de suporte científico para o que se vai debitando, mas agudiza-se com a forma desprezível como olha para essa cientificidade, assumindo a perspectiva do autor como perspectiva de verdade. Ou seja, afirmando o meramente anedótico ("eu acho que é assim", ou "eu vejo assim") como prova de realidade igual para todos. O melhor do livro é mesmo o facto de ser ler em pouco mais de duas horas, por isso não se perde demasiado com a sua leitura.
Alguns exemplos
p.26: "Alguns leitores juram que conseguem imaginar os personagens perfeitamente, mas apenas enquanto estão a ler. Eu duvido disso."
Bem, isto é o mesmo que dizer que Nabokov, entre muitos outros sinestesistas, não viam cores ou ouviam sons quando liam letras, palavras ou frases. Ou seja, o autor diz simplesmente: "se eu não vejo, os outros também não vêem."
P.39: “É provável que ouçam a linha (no ouvido da mente) antes de imaginar o personagem. Eu posso ouvir as palavras de Ishmael com mais clareza do que consigo ver o seu rosto. (A audição requer processos neurológicos diferentes da visão, ou cheiro. E eu sugeriria que nós ouvimos mais do que vemos enquanto lemos.)”
Mais uma. Simplesmente porque o autor tem a impressão de ouvir melhor, nada reportando sobre essa diferença, até porque o livro é sobre apenas o que vê, ou melhor sobre o que imagina que deveria ver, esquecendo completamente toda a restante componente sensorial que a experiência de leitura produz no leitor, já avança com afirmações a que liga termos científicos ("processos neurológicos") sem qualquer suporte. Isto faz o livro descer ao nível de texto de opinião de jornal regional.
Frases e problemas como estes são mais do que muitos, e não vale a pena sequer tentar aqui elencar os mesmos. Cada um de nós tem as suas teorias próprias sobre o que acontece dentro de si quando lê, ouve, vê um filme, ou passa por um evento real complexo, mas isso não faz de nós especialistas em linguagem ou neuropsicologia. Mendelsund limita-se a usar do conhecimento disciplinar em Design que possui, diga-se meramente aplicado, para tentar responder ao que acontece dentro das nossas mentes, o que não é muito diferente de alguém tentar retirar uma rolha de cortiça de uma garrafa de vinho com um abre-latas ou abre-cápsulas. Repare-se como invariavelmente Mendelsund vai saltitando entre tópicos altamente complexos e díspares como: memória; cognição; emoção; atenção; imaginação; linguagem; comunicação; a relação entre imagens mentais e imagens físicas; os sons e os cheiros; os filmes, os videojogos e os livros; a narração, a dramatização e a descrição; etc.
O livro parece mais um conjunto de ideias, que não sendo desinteressantes, não vão além da superfície do que se discute. Como se o autor tivesse lido alguns livros sobre o tema, e quisesse converter em texto algumas das ideias que o têm assombrado. E se não tenho nada contra a que cada um o possa fazer, já tenho contra quando o texto tende a tentar passar-se por Estudo ou Investigação, com gráficos supostamente científicos (ver imagem abaixo) ou sendo referido como tal em elogios. Porque nada do que nos diz Mendelsund é novo, ou não foi discutido imensamente, mas mais importante do que isso, não foi verdadeiramente investigado, nomeadamente nas últimas duas décadas com as neurociências e na linguística. Não faltam referências de estudos e trabalhos sobre o tema, e quantos cita ou refere Mendelsund, zero. As únicas referências que Mendelsund vai fazendo para além dos clássicos da literatura, são meia dúzia de filósofos. E no final rotula tudo como um estudo fenomenológico, e já está. Pois não está, isto é nada. E menos ainda é dar isto a ler às crianças sem as colocar de sobre-aviso, sobre o facto disto não ser ciência, disto não passar de uma conversa de café interessante. Mais preocupante ainda quando a editoria vai buscar epítetos de um conjunto de amigos do autor e coloca na contra-capa atribuindo uma relevância muito além daquela que o texto merece.
[imagem]
O resultado do suposto estudo de Mendelsund em que este pretende comparar parâmetros como agência e vivacidade das imagens criadas a partir de experiências como: sonho, alucinação, perceção real e imaginação da leitura. Colo-as aqui, apenas para chamar a atenção que estas não possuem qualquer validade.
Para quem realmente quiser saber o que se passa nas nossas mentes quando lemos, deixo aqui algumas leituras, não que existam certezas, mas exatamente por isso é que não podemos simplesmente brincar com ideias como se tudo valesse o mesmo, como se meras opiniões fossem tão relevantes como a ciência. Deixo apenas alguns livros de divulgação científica, por ordem de acessibilidade e relevância para o tema, não fazendo sequer menção às centenas de artigos científicos sobre o tema:
Bergen, B. K. (2012). Louder than words: The new science of how the mind makes meaning. Basic Books (AZ).
Damasio, A. R. (1994). Descartes’ error: Emotion, rationality and the human brain.
Pinker, Steven (1994). The Language Instinct: How the Mind Creates Language. Perennial.
Damasio, A. R. (2018). The Strange Order of Things: Life, Feeling, and the Making of Cultures. Pantheon.
Eco, U. (1989). Opera aperta. Harvard University Press.
Ahlsén, Elisabeth (2006). Introduction to Neurolinguistics. John Benjamins Publishing Company
Chomsky, Noam (2000). The Architecture of Language. Oxford: Oxford University Press.
Lakoff, G., & Johnson, M. (2008). Metaphors we live by. University of Chicago press.
Bordwell, D. (1991). Making meaning: Inference and rhetoric in the interpretation of cinema. Harvard University Press.
Publicado no VI: https://virtual-illusion.blogspot.com...
Alguns exemplos
p.26: "Alguns leitores juram que conseguem imaginar os personagens perfeitamente, mas apenas enquanto estão a ler. Eu duvido disso."
Bem, isto é o mesmo que dizer que Nabokov, entre muitos outros sinestesistas, não viam cores ou ouviam sons quando liam letras, palavras ou frases. Ou seja, o autor diz simplesmente: "se eu não vejo, os outros também não vêem."
P.39: “É provável que ouçam a linha (no ouvido da mente) antes de imaginar o personagem. Eu posso ouvir as palavras de Ishmael com mais clareza do que consigo ver o seu rosto. (A audição requer processos neurológicos diferentes da visão, ou cheiro. E eu sugeriria que nós ouvimos mais do que vemos enquanto lemos.)”
Mais uma. Simplesmente porque o autor tem a impressão de ouvir melhor, nada reportando sobre essa diferença, até porque o livro é sobre apenas o que vê, ou melhor sobre o que imagina que deveria ver, esquecendo completamente toda a restante componente sensorial que a experiência de leitura produz no leitor, já avança com afirmações a que liga termos científicos ("processos neurológicos") sem qualquer suporte. Isto faz o livro descer ao nível de texto de opinião de jornal regional.
Frases e problemas como estes são mais do que muitos, e não vale a pena sequer tentar aqui elencar os mesmos. Cada um de nós tem as suas teorias próprias sobre o que acontece dentro de si quando lê, ouve, vê um filme, ou passa por um evento real complexo, mas isso não faz de nós especialistas em linguagem ou neuropsicologia. Mendelsund limita-se a usar do conhecimento disciplinar em Design que possui, diga-se meramente aplicado, para tentar responder ao que acontece dentro das nossas mentes, o que não é muito diferente de alguém tentar retirar uma rolha de cortiça de uma garrafa de vinho com um abre-latas ou abre-cápsulas. Repare-se como invariavelmente Mendelsund vai saltitando entre tópicos altamente complexos e díspares como: memória; cognição; emoção; atenção; imaginação; linguagem; comunicação; a relação entre imagens mentais e imagens físicas; os sons e os cheiros; os filmes, os videojogos e os livros; a narração, a dramatização e a descrição; etc.
O livro parece mais um conjunto de ideias, que não sendo desinteressantes, não vão além da superfície do que se discute. Como se o autor tivesse lido alguns livros sobre o tema, e quisesse converter em texto algumas das ideias que o têm assombrado. E se não tenho nada contra a que cada um o possa fazer, já tenho contra quando o texto tende a tentar passar-se por Estudo ou Investigação, com gráficos supostamente científicos (ver imagem abaixo) ou sendo referido como tal em elogios. Porque nada do que nos diz Mendelsund é novo, ou não foi discutido imensamente, mas mais importante do que isso, não foi verdadeiramente investigado, nomeadamente nas últimas duas décadas com as neurociências e na linguística. Não faltam referências de estudos e trabalhos sobre o tema, e quantos cita ou refere Mendelsund, zero. As únicas referências que Mendelsund vai fazendo para além dos clássicos da literatura, são meia dúzia de filósofos. E no final rotula tudo como um estudo fenomenológico, e já está. Pois não está, isto é nada. E menos ainda é dar isto a ler às crianças sem as colocar de sobre-aviso, sobre o facto disto não ser ciência, disto não passar de uma conversa de café interessante. Mais preocupante ainda quando a editoria vai buscar epítetos de um conjunto de amigos do autor e coloca na contra-capa atribuindo uma relevância muito além daquela que o texto merece.
[imagem]
O resultado do suposto estudo de Mendelsund em que este pretende comparar parâmetros como agência e vivacidade das imagens criadas a partir de experiências como: sonho, alucinação, perceção real e imaginação da leitura. Colo-as aqui, apenas para chamar a atenção que estas não possuem qualquer validade.
Para quem realmente quiser saber o que se passa nas nossas mentes quando lemos, deixo aqui algumas leituras, não que existam certezas, mas exatamente por isso é que não podemos simplesmente brincar com ideias como se tudo valesse o mesmo, como se meras opiniões fossem tão relevantes como a ciência. Deixo apenas alguns livros de divulgação científica, por ordem de acessibilidade e relevância para o tema, não fazendo sequer menção às centenas de artigos científicos sobre o tema:
Bergen, B. K. (2012). Louder than words: The new science of how the mind makes meaning. Basic Books (AZ).
Damasio, A. R. (1994). Descartes’ error: Emotion, rationality and the human brain.
Pinker, Steven (1994). The Language Instinct: How the Mind Creates Language. Perennial.
Damasio, A. R. (2018). The Strange Order of Things: Life, Feeling, and the Making of Cultures. Pantheon.
Eco, U. (1989). Opera aperta. Harvard University Press.
Ahlsén, Elisabeth (2006). Introduction to Neurolinguistics. John Benjamins Publishing Company
Chomsky, Noam (2000). The Architecture of Language. Oxford: Oxford University Press.
Lakoff, G., & Johnson, M. (2008). Metaphors we live by. University of Chicago press.
Bordwell, D. (1991). Making meaning: Inference and rhetoric in the interpretation of cinema. Harvard University Press.
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Sim, o livro é na verdade uma teoria muito própria de Mendelsund. Apreciei-o sobretudo como peça, com descobertas gráficas a cada página que nos dão vontade de o folhear apenas para o ver.
@Maria, como digo cada um de nós tem as suas teorias sobre o assunto, eu também tenho as minhas, algumas mais informadas outras meras suposições, por isso não quis sequer entrar pela discussão do que estava mais ou menos correto. Claro que se pode fazer tal, mas mesmo assumindo que é um mero discorrer sobre ideias, é preciso alguma humildade naquilo que se pode afirmar sobre aquilo que os outros pensam ou sentem.
@Susana, existem muitos artigos sobre o tema, sobre a diferença entre "consumir" um texto e uma imagem, um som, etc. Estes livros servem para levantar a ponta do véu. O tema é imensamente complexo, e existem alguns factos conhecidos, mas muita coisa ainda está por descobrir.
@Rita. Cheguei a ponderar fazer essa apreciação. Existe uma parte do livro que o aproxima do livro objeto, mas para tal o autor deveria ter-se centrado nisso mesmo. Mas depois de ver o livro no Plano Nacional de Leitura achei que tinha de colocar o dedo na ferida para não compactuar com o tipo de discurso. Existe muito que ele discute no livro que daria para conversas intermináveis e extremamente interessantes, tivesse o autor assumido uma outra postura.
Claro que sim, estamos apenas no campo das ideias, não sei como poderia o autor comprovar cientificamente. O facto de uma amostra pensar de determinada maneira, não é conclusivo para deixar de ser empirismo e passar a teoria. Aqui está uma das diferenças entre as ciências experimentais e as ciências sociais.


Embora com o tempo tenho tendência para "desimaginar" as personagens secundárias, mas curioso, em cada livro fica sempre uma. pelo menos uma, da qual me lembro e consigo a partir dessa personagem invocar mentalmente a história do livro. :) mesmo em livros lidos há muito tempo.
Foi boa ideia colocares algumas referências. :) obrigado!