Ricardo Lourenço's Reviews > A Sombra do Vento

A Sombra do Vento by Carlos Ruiz Zafón
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4076525
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Sep 25, 2010

it was amazing

“- Este lugar é um mistério, Daniel, um santuário. Cada livro, cada volume que vês, tem alma. A alma de quem o escreveu e a alma dos que o leram e viveram e sonharam com ele. Cada vez que um livro muda de mãos, cada vez que alguém desliza o olhar pelas suas páginas, o seu espírito cresce e torna-se forte. (...)
Quando uma biblioteca desaparece, quando uma livraria fecha as suas portas, quando um livro se perde no esquecimento, os que conhecemos este lugar, os guardiães, asseguramo-nos de que chegue aqui. Neste lugar, os livros de que já ninguém se lembra, os livros que se perderam no tempo, vivem para sempre, esperando chegar um dia às mãos de um novo leitor, de um novo espírito.”

É em 1945, numa Barcelona destroçada pela guerra civil que o jovem Daniel Sempere é levado pelo seu pai ao Cemitério dos Livros Esquecidos. Neste autêntico labirinto borgiano, Daniel escolhe um livro para proteger, de nome A Sombra do Vento, escrito pelo desconhecido Julián Carax, casualidade que terá importantes consequências na sua vida.
Neste romance Zafón condensa diversas influências, apresentando desde traços característicos do romance gótico a alguns vestígios de realismo mágico que, embora ténues, se vão insinuando ao longo da história, fazendo lembrar o estilo do colombiano Gabriel Garcia Marquez. Essa fusão é deliberada, revelando a ambição de Zafón em proporcionar ao leitor uma experiência cativante e intensa.

“Numa ocasião ouvi um cliente habitual comentar na livraria do meu pai que poucas coisas marcam tanto um leitor como o primeiro livro que realmente abre caminho até ao seu coração. Aquelas primeiras imagens, o eco dessas palavras que julgamos ter deixado para trás, acompanham-nos toda a vida e esculpem um palácio na nossa memória ao qual, mais tarde ou mais cedo – não importa quantos livros leiamos, quantos mundos descubramos, tudo quanto aprendamos ou esqueçamos –, vamos regressar.”

A Sombra do Vento marca profundamente Daniel, de tal forma deslumbrado que se surpreende ao descobrir que a obra de Carax não só foi um fracasso de vendas, como tem vindo a ser destruída por uma misteriosa figura que não poupa esforços para queimar todos os exemplares ainda existentes. O seu interesse pelo autor impulsiona-o a tentar descobrir mais sobre este, curiosidade que acabará por o envolver em circunstâncias cada vez mais perigosas.
Embora a perspectiva de Daniel seja predominante, a história ramifica-se nas suas investigações, efectuadas nos 40 e 50, e no passado do próprio Julián Carax, pontos a partir dos quais o enredo se fragmenta ainda mais, ora acompanhando a vida do jovem livreiro, ora mergulhando no passado das diversas personagens envolvidas com Carax, secções que normalmente se destacam pelo uso de itálico e pelo discurso na terceira pessoa.

“A sua alma está nas suas histórias. Numa ocasião perguntei-lhe em quem se inspirava para criar as suas personagens e ele respondeu-me que em ninguém. Que todas as personagens eram ele próprio.”

A acção é polvilhada por diversas considerações a respeito da relação entre o leitor e o texto, assim como da importância dos livros e do papel dos escritores. Na citação acima, Zafón vai de encontro à posição de José Saramago, algo visível num ensaio deste último, em que refere que “(...) o autor está no livro todo, o autor é todo o livro, mesmo quando o livro não consiga ser todo o autor”, pelo que não é de admirar a relevância atribuída ao autor e à sua capacidade em imprimir a sua alma nas palavras.

“O destino costuma estar ao virar da esquina. Como se fosse um gatuno, uma rameira ou um vendedor de lotaria: as suas três encarnações mais batidas. Mas o que não faz é visitas ao domicílio. É preciso ir atrás dele.”

E a alma de A Sombra do Vento está, para além das referidas considerações relativas à leitura, nas suas encantadoras personagens, das quais se destaca o excêntrico Fermín Romero, que com os seus comentários acutilantes e o seu sentido de humor nos consegue arrancar um sorriso nas situações mais inacreditáveis.
Uma obra marcante, dedicada aos amantes da literatura, que torna claro como nunca é tarde para tomar as rédeas do nosso pensamento, para deixarmos de nos submeter às crenças alheias, aproveitando ao máximo um dos actos mais enriquecedores da experiência humana: a leitura.

“Bea diz que a arte de ler está a morrer muito lentamente, que é um ritual íntimo, que um livro é um espelho e que só podemos encontrar nele o que já temos dentro, que ao ler aplicamos a mente e a alma, e que estes são bens cada dia mais escassos.”
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Comments (showing 1-6)




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Nícia também adorei :)


Ricardo Lourenço Nícia wrote: "também adorei :)"
Daqui a 1-2 dias publico a review aqui e no meu blog. Dos livros que li recentemente, é sem dúvida o que mais me impressionou.


Nícia A sombra do vento é um dos meus livros preferidos, já o li há uns tempos e nessa altura não tinha o hábito de fazer reviews (é pena). São poucos os livros que me marcam tanto.


Eliza Oh, só reviews fantásticos deste livro; está mesmo no topo da minha lista de livros para ler, e nunca mais pego nele. Estou tão curiosa, mais e mais e mais :)


Ricardo Lourenço Bem, já publiquei a minha review para quem estiver interessado.


message 1: by Joana (new) - added it

Joana Clara O dia em que conseguir descrever este livro é sinal de que deixei de o amar.


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