Ricardo Lourenço's Reviews > O Grande Deus Pã

O Grande Deus Pã by Arthur Machen
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Marco importante na literatura fantástica, inspirando e influenciando muitos autores que se inserem nesse género, não se justifica a imerecida falta de atenção dada à obra de Machen por parte das editoras portuguesas. Felizmente a Saída de Emergência, à semelhança do que tem vindo a fazer em relação a diversos escritores, acaba por preencher o relativo vazio no que a traduções em português diz respeito.
No entanto, é preciso ter em conta que, naturalmente, não podemos ler os seus contos da mesma forma que se fazia nos finais do séc. XIX, inícios do séc. XX. O horror transmitido não causa o mesmo impacto, algo que se deve em grande parte ao grande progresso tecnológico que caracterizou o século passado, e que continua a estar presente na actualidade (talvez um tema para um post posterior, este da desmistificação que a ciência veio trazer, e as suas consequências na literatura).

Nesta edição estão traduzidos os seguintes contos:


· O Grande Deus Pã (The Great God Pan, 1984)
Iniciando-se com uma sinistra experiência numa jovem rapariga, que acaba por destruir a mente desta, este conto apresenta uma sucessão de estranhos acontecimentos que, apesar de aparentemente serem independentes uns dos outros, acabam por revelar ligações que vêm desmistificar a identidade de uma mulher que se crê estar na origem de uma bizarra série de suicídios em Londres.


· Novela da Chancela Negra (The Novel of the Black Seal, 1895)
Uma leitura especialmente interessante para quem aprecia a obra de H.P. Lovecraft, dado que é visível a influência que este conto (e, no fundo, a obra de Machen) teve sobre o trabalho de Lovecraft, nomeadamente em “The Whisperer in Darkness” (que pode ser encontrado nas antologias publicadas também pela Saída de Emergência).


· A Luz Mais Interior (The Innmost Light, 1894)
Em que o casal Black se muda para os subúrbios de Londres, vivendo felizes, pelo menos temporariamente, dado que a senhora Black desaparece por completo durante o Inverno. Tal facto é encoberto pelo marido, mas esta acaba por ser avistada através de uma janela, sendo aparente uma horrível mudança que nela se operou.


· Povo Branco (The White People, 1904)
Talvez o conto que mais apreciei, aquele que nos impele fortemente a uma reflexão sobre a própria natureza do mal, fruto da discussão entre dois homens com que se inicia. De modo a ilustrar os seus argumentos, um dos intervenientes acaba por revelar um diário que tem na sua posse, relatando as impressões de uma jovem, que acabam por ser o ponto central deste Povo Branco.

Trata-se de um boa selecção mas, apesar do que foi dito até agora devo salientar que a escrita de Machen não está isente de falhas, longe disso. De facto, os seus contos apresentam diversos problemas a nível de narrativa, que se desenvolve em grande parte através do uso da coincidência. Muito embora tal abordagem permita criar uma progressão que se assemelha a um pesadelo, em que independentemente das opções tomadas pelas personagens estas caminham sempre de encontro ao mistério, o uso recorrente da coincidência acaba por empobrecer alguns dos contos.
Para além destes aspectos, Machen peca também pela caracterização das personagens que é bastante elementar, tornando-as bastante desinteressantes por vezes.
Mas, apesar destes pontos negativos, a obra de Arthur Machen não deixa de ser uma leitura recomendada, especialmente aos adeptos do fantástico e do horror. Não se vão arrepender ao entrar num ambiente único em que o mistério e o terror se entrelaçam...em que paisagens atractivas encobrem, com a sua beleza, forças que a compreensão humana não consegue atingir.
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Diana Rosa «No entanto, é preciso ter em conta que, naturalmente, não podemos ler os seus contos da mesma forma que se fazia nos finais do séc. XIX, inícios do séc. XX. O horror transmitido não causa o mesmo impacto (...)» De facto, foi uma das coisas que me ocorreu enquanto estava a ler. Às vezes tenho pena que, numa época em que já vimos todo o tipo de imagens extremas, já ouvimos falar de tudo, já lemos tanto horror, este tipo de literatura já não nos atinja tão fortemente.
Já não falta inventar nada que nos choque. :/


Ricardo Lourenço Continua a ser possível chocar o leitor, mas para tal é necessário acompanhar o desenvolvimento que a sociedade sofreu. O medo estará sempre presente em cada um de nós, mas é moldado pela realidade que nos rodeia, e a realidade de Artur Machen era bastante diferente, o que permite um distanciamento por parte do leitor que acaba por retirar grande parte do poder que as suas palavras poderiam ter.


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