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Este era um provérbio comum em minha casa. No lugar dos ditados em inglês que minha mãe nunca aprendeu, ela inventou os dela. “A mamãe é a única que vai dizer a verdade para você, porque a mamãe é a única que a ama de verdade.” Algumas das lembranças mais antigas que tenho são de minha mãe me instruindo a sempre “reservar dez por cento de mim mesma”. Ela queria dizer que, por mais que você achasse que amava alguém, ou que alguém amava você, nunca devia se entregar por inteiro. Reserve dez por cento, sempre, para que sobre alguma coisa em que se apoiar. “Até do papai eu reservo”, ela
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Quando eu era bem pequena, ela comprimia o meu nariz porque tinha receio de que fosse achatado demais.
Se já era difícil até registrar que essa mulher era a mãe de minha mãe, era muito mais complicado perceber que a relação delas seria um modelo para a ligação entre mim e minha mãe pelo resto da vida.
“Eu fiz um aborto depois de você porque você era uma criança horrível!”
As botas de caubói chegaram em um desses pacotes, depois de os meus pais terem passado férias no México. Quando calcei, descobri que já tinham sido amaciadas. Minha mãe tinha usado as botas dentro de casa durante uma semana, por uma hora todos os dias, amaciando as partes duras usando dois pares de meia, moldando a sola lisa com a planta do pé dela, amolecendo a rigidez, fazendo com que o couro duro cedesse para me poupar de qualquer desconforto.
Tentava me enxergar através dos olhos sagazes de minha mãe,
Uma vez, até fomos ao aeroporto só para observar as pessoas no terminal, partindo para cidades que desejávamos desesperadamente poder visitar, um bando de adolescentes notívagos ligados por uma solidão profunda e inexplicável e mensagens instantâneas da aol.
Era estranho estar sozinha em um lugar a que sempre tínhamos ido juntas.
Naquela noite, deitada ao lado dela, lembrei de como, quando eu era criança, enfiava meus pés frios entre as pernas de minha mãe para esquentar. De como ela estremecia e sussurrava que sempre iria sofrer para me dar conforto, que era assim que a gente sabia que alguém amava a gente de verdade. Lembrei das botas que ela tinha amaciado para que, quando eu as recebesse, pudesse usar sem me preocupar e sem nenhum incômodo. Agora, mais do que nunca, desejava, desesperada, que existisse um jeito de transferir a dor, desejava que eu pudesse provar para minha mãe o quanto eu a amava, que pudesse
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Sentou-se no chão e confrontou seu reflexo. Passou a mão na cabeça e ficou olhando fixamente para o cabelo que caiu. No mesmo espelho de corpo inteiro diante do qual eu a tinha visto posar durante mais da metade de minha vida. O mesmo espelho diante do qual eu a havia visto aplicar um creme após o outro para preservar sua pele lisa e perfeita. O mesmo espelho diante do qual eu a tinha visto experimentando uma roupa atrás da outra, caminhando como se estivesse na passarela com a postura perfeita, examinando a si mesma com orgulho, posando com uma bolsa nova ou com uma jaqueta de couro. O
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Unni é como as coreanas se referem às irmãs mais velhas e amigas próximas que são mais velhas.
“Então, o que você é?” era a última coisa que eu queria que me perguntassem aos doze anos, porque estabelecia que eu me destacava, que era irreconhecível, que não pertencia. Até então, eu sempre tinha tido orgulho de ser meio coreana, mas de repente fiquei com medo de que aquilo fosse se tornar o traço que me definia, por isso comecei a apagá-lo.
“Você não sabe o que é ser a única menina coreana na escola”, expliquei a minha mãe, que ficou me olhando sem entender nada. “Mas você não é coreana”, ela disse. “Você é norte-americana.”
Como eu podia ser tão obcecada por mim mesma a ponto de reclamar de uma pessoa que tinha se oferecido para ajudar de modo tão altruísta?
Que reviravolta cruel do destino, pensei, com o rosto ficando vermelho enquanto segurava as lágrimas. Eu tinha passado toda a adolescência tentando me misturar aos meus colegas dos subúrbios dos Estados Unidos, e tinha chegado à maioridade sentindo que o meu pertencimento era algo a ser provado. Algo que sempre estava nas mãos dos outros, para ser dado e nunca tomado por conta própria; eu nunca poderia decidir de que lado eu estava, com quem eu tinha permissão de me alinhar. Nunca podia fazer parte dos dois mundos, só metade de um e metade do outro, esperando para ser ejetada à mercê de alguém
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Meu pai e eu pegamos o ônibus para o aeroporto de Incheon enquanto minha mãe ficou, cuidando do restante dos pertences de Eunmi. Ao nos afastarmos da cidade, me peguei virando para trás e olhando para Seul como se fosse uma cidade estrangeira, diferente da utopia idílica de minha infância. Sem halmoni e Eunmi, parecia que Seul me pertencia um pouco menos.
Era a única pessoa no mundo que poderia me dizer que, de algum jeito, as coisas iam dar certo.
Pelo resto de minha vida, haveria uma farpa no meu ser.
“Quando você era criança, vivia agarrada em mim. Em todo lugar aonde a gente ia”, minha mãe sussurrou, fazendo força para colocar as palavras para fora. “E agora que você é mais velha, aqui está… ainda agarrada a mim.”
Era difícil escrever sobre alguém que eu achava que conhecia tão bem.
Agora que ela não estava mais aqui, comecei a estudá-la como se fosse uma desconhecida, desencavando os pertences dela na tentativa de redescobri-la, tentando trazê-la de volta à vida de qualquer maneira possível.
“É, sim”, ela disse. “Sabe o que eu percebi? Que eu simplesmente nunca conheci ninguém igual a você.”
Depois do enterro de minha mãe, parecia que a casa havia se transformado e se voltado contra nós. O lugar que antes era um reflexo reconfortante do estilo individual dela agora era um símbolo do nosso fracasso coletivo.
Na maioria das noites, depois de jantarmos cedo, voltávamos para o quarto do hotel e eu me encolhia na cama e dormia de catorze a quinze horas. O luto, assim como a depressão, fazia com que fosse difícil cumprir até a menor das tarefas. O país parecia um desperdício para a gente. Estávamos alheios a qualquer espetáculo ou sentimento, arrasados em silêncio e totalmente sem noção do que fazer para ajudar um ao outro.
A minha primeira palavra foi em coreano: umma. Mesmo criancinha, sentia a importância de minha mãe. Ela era quem eu mais via, e, na margem obscura da consciência que fui adquirindo, eu já sabia que ela era minha. Na verdade, ela foi tanto a minha primeira quanto a minha segunda palavra: umma, depois mom. Chamei por ela em duas línguas. Mesmo naquele tempo, eu já devia saber que ninguém jamais me amaria tanto quanto ela.
A cultura que dividíamos estava ativa, efervescente em minhas entranhas e genes, e eu tinha de assumi-la, alimentá-la para que não morresse em mim. Para que pudesse passá-la adiante algum dia. As lições que ela compartilhou, a prova de que a vida dela continuava, agora dentro de mim, em cada movimento e em cada ato meu. Eu era o que tinha sobrado. Se eu não podia estar com a minha mãe, eu seria ela.
Tinha me mudado para Nova York para deixar minhas ambições criativas de lado e concentrar minhas energias em galgar os degraus da carreira corporativa, mas todos os sinais pareciam indicar que ainda não estava na hora de jogar a toalha.

