Como alguém que já se aproxima dos 30, tenho de começar a aceitar o triste facto de que YA já não é exatamente um género escrito comigo em mente.
Dito isto, o Apartamento em Crise acabou por ser uma leitura rápida e leve, contrastando bastante com o tipo de livros que tenho lido nos últimos tempos.
A história segue um jovem privilegiado que recebe um triplex em Lisboa. Uma prenda dos pais que vem acompanhada da expetativa de que termine o curso e siga o negócio da família.
Logo por aqui, o livro já se distingue da maioria dos títulos do mesmo gênero literário. Não estamos a ler sobre um underdog ou outcast, mas sim sobre alguém que começa numa posição de privilégio, o que me apanhou desprevenido. Pelo título, eu esperava uma narrativa sobre alguém a tentar lidar com os preços absurdos das rendas em Portugal e as dificuldades dos jovens nos dias de hoje.
Contudo, essa temática acaba por surgir mais tarde, quando amigos do protagonista, incapazes de pagarem as suas rendas ou sequer encontrar um quarto, acabam por ficar a morar com ele pelo que era suposto ser temporariamente.
Confesso que não me consegui identificar nada com o protagonista, talvez por não vir de um contexto semelhante e não ter o nível de extroversão que ele aparenta ter no início do livro. E até o romance principal me pareceu um pouco apressado de certa forma. Eles conhecem-se e parece que se apaixonam instantaneamente, apesar de não saberem nada um sobre o outro.
Novamente, eu acredito que estas críticas sejam só por já estar nos meus 28 anos e já não conseguir pensar como um jovem nos seus early 20s, que é claramente o público-alvo.
E apesar destas críticas, eu acebei por gostar bastante do desenvolvimento final. A segunda metade do livro foi bastante cativante e talvez a parte mais forte da obra. A narração na primeira pessoa com uma voz bastante moderna também ajudou.
Acima de tudo, valorizo bastante a relevância dos temas abordados, especialmente porque são questões ainda muito pouco representadas em Portugal. É bom ver histórias LGBT e sobre a crise da habitação a receberem mais representação, pois, na minha altura, não eram tópicos que fossem falados, muito menos em livro para jovens adultos.
Em conclusão, Apartamento em Crise é uma história queer que retrata a realidade de muitos jovens no nosso país. As esperanças e as dificuldades. Só gostava que tivesse aprofundado mais a temática por ser algo tão urgente e atual. Mesmo assim, o livro cumpre a sua missão de dar visibilidade a realidades ainda pouco representadas ou distorcidas por quem não as conhece.
Acredito que a carreira deste jovem escritor esteja apenas a começar e estou muito curioso para ver onde o futuro o levará. Mas, mais do que isso, estou ainda mais interessado em descobrir onde as suas próximas histórias nos levarão a nós.