#outubrohispanoamericano
Talvez seja essa a tua missão: juntar os ossos das raparigas, montá-las, dar-lhes voz e depois deixá-las correr livremente até onde tiveram de ir.
Com um título tão incisivo e explícito, sabemos à partida o que nos espera ao abrir “Raparigas Mortas”. Num trabalho de investigação centrado em três crimes que ficaram impunes, Selva Almada mostra de que forma ficou obcecada por três jovens adolescentes durante a sua própria juventude, nos anos 80, - Andrea, Sarita e Maria Luísa - porque poderia ter sido ela, poderia ter sido alguém seu conhecido, dado que nem no recolhimento das suas casas estavam em segurança. Contudo, não se limita a estes casos mais mediáticos, referindo também muitas outras vítimas, o que pode tornar-se confuso, mas tem toda a lógica, visto que é uma prática generalizada. O femicídio como flagelo social é um daqueles fenómenos que se tivesse um contador marcaria um número superior cada vez que piscássemos os olhos.
Estamos no verão e está calor, quase como naquela manhã de 16 de novembro de 1986, quando de certo modo, este livro começou a ser escrito, quando a rapariga morta se atravessou no meu caminho. Agora, tenho 40 anos e, ao contrário dela e de milhares de mulheres assassinadas no nosso país desde então, continuo viva. É só uma questão de sorte.
Este livro não traz nada de novo, nada que não se ouça todos os dias na televisão nacional: que as mulheres são os alvos fáceis e preferenciais de tudo o que é tarado, psicopata, homem preterido e frustrado. O que a argentina Selva Almada conta aqui é basicamente o que acontece em Portugal, em todos os países latinos e também em alguns ainda piores que estes, onde a vida de uma mulher vale menos do que um caracol. É, portanto, um livro importante e necessário.
Pensei que se ele me metesse no meio do milho primeiro ia-me violar e depois ia-me matar-me, disse-me ela com voz trémula. Tenho a certeza de que ele me matava.
Não obstante o carácter jornalístico, a autora consegue dar a esta obra um cariz mais pessoal, com algum esoterismo, crendices, lendas e especificidades culturais do seu país, o que a, meu ver, eleva a sua leitura.
O baralho do tarô estava, como sempre, sobre o pano verde, mas não o estendemos, não virei as cartas com a mão direita, não fiz perguntas. Disse-me que já estava na hora de largar, que não é bom andar muito tempo a vaguear de um lado para o outro, da vida para a morte. Que as raparigas devem voltar para onde pertencem agora. (...) Três velas brancas. O meu adeus às raparigas.