Os dois retratos

Antes de voltar à Quinta de São Francisco, o Vítor decidiu passar no Bananeiro da Rua do Souto para beber o copinho de moscatel e morder a banana. Ao chegar ao cruzamento com a Rua Francisco Sanches, deparou-se com um engarrafamento pouco usual. A rua estava congestionada de transeuntes. Avançou empurra aqui, encosta acolá e de súbito viu-se entalado entre uma rapariga e um brutamontes que lhe metia os punhos nas costelas enquanto berrava palavrões para um outro dois metros mais à frente.
– Professor Vítor!? – exclamou a rapariga quando sentiu que alguém se encostava demasiado ao seu belo traseiro e se voltou para protestar da canalhice.
– Oh! Eu conheço-a!
– Pois conhece. Sou a Maura. Fui sua aluna.
– E como veio parar a este aperto, Maura?
– Sendo empurrada.
– Também eu estou a ser empurrado. Peço desculpa, não queria abusar. Estava a ver que levava uma bofetada.
– Oh, não tem importância. Mas se fosse esse bruto aí atrás, levava-a.
E ela riu. Por causa de dois acordeonistas barrigudos que tocavam à desgarrada no meio da rua com os basbaques à volta, era praticamente impossível avançar em frente.
– Isto está complicado – comentou a rapariga.
Tentou a esquerda em direção à Casa das Bananas. Ele decidiu segui-la pela abertura que de repente surgiu. A entrada na loja foi complicada devido à enchente de clientela. Os dois conseguiram aproximar-se do balcão, mas os pedidos eram tantos que não havia forma de os empregados se dignarem atendê-los. Até que um deles voltou a atenção para a rapariga, certamente encantado pelos dois palminhos de cara. Esta pediu duas bananas e dois copos de moscatel. Pagou, voltou-se para o Vítor e ofereceu-lhe uma das bananas e um copo.
– Obrigado, Maura. Quanto lhe devo?
– Fazemos contas na rua.
Tiveram de beber o moscatel antes de abandonarem a loja, não fossem acabar por derramá-lo devido a algum encontrão, mas guardaram as bananas. Na rua, as dificuldades de circulação continuaram. Ao aproximarem-se do Largo do Paço, repararam que o espaço, embora também com muita gente, estava menos congestionado e para aí se dirigiram.
– Por pouco éramos esmagados – comentou ela junto ao chafariz.
– A minha banana está como puré.
– Meteu-a no bolso... Teve sorte em não se sujar. Mas que surpresa, professor, encontrá-lo aqui!
– Sim, pois é verdade. Já não nos vemos desde...
– Foi meu professor de Português há quatro anos.
– Sim, foi isso mesmo. E a Maura que tem feito?
– Entrei no curso de Medicina na Universidade do Minho.
– Sim, eu sei disso. Lembro-me perfeitamente. A Maura foi uma das melhores alunas. E está a correr bem?
– Algumas matérias são maçudas e os professores pouco amistosos. Mas lá se vai fazendo.
– Para quem é inteligente e gosta do que estuda, tudo se torna muito mais fácil. E agora? Perdeu-se de alguém no meio da confusão?
– Não. Estou sozinha. Vi na Internet que estava aqui muita animação e vim ver.
Um tipo com um gorro do Pai Natal que passou com uma garrafa de Favaios, ao ver-lhes os copos vazios na mão, encheu-lhos e, erguendo a garrafa, de que bebericou pelo gargalo, exclamou:
– Boas festas!
A Maura provou e disse que aquele era bem melhor do que o moscatel de Setúbal que comprara na loja.
– Sim, este é melhor – concordou o Vítor. – Deve ser da saliva que aquele tipo lhe misturou ao beber pelo gargalo.
– Que nojo! – protestou ela entornando o resto do vinho para o chão.
Comeram depois as bananas e atiraram as cascas para um canto das escadas do chafariz.
(...)

(Histórias de Natal)
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Published on January 31, 2017 07:29 Tags: braga, christmas, natal
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