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Medo e outras histórias by Stefan Zweig
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Jan 31, 10

bookshelves: literatura, tempo-livre
Read from January 29 to 31, 2010 — I own a copy

Este simpático livro de contos de Stefan Zweig reúne três histórias muito cativantes.
A primeira delas, “Medo”, tem o defeito contingente de ter sido traduzida por Lya Luft, cujas versões não costumam me agradar: por outro lado, para traduzir uma história de uma burguesa decadente, nada melhor do que outra.
O conto me parece o melhor de todo o livro: a vida ordenada e segura de Irene, uma adúltera da burguesia vienense, começa a se fragilizar quando ela começa a ser ameaçada por um mulher que se diz casada com seu amante.
Nada em Irene é próprio; tudo é ensaiado, mesmo o pecado. O problema da história é sua previsibilidade: não é difícil descobrir que as chantagens são armadas pelo marido, que apenas deseja chamar-lhe às falas pelo medo. No final, o recado é bastante pessimista: só um burguês pode restaurar a ordem burguesa.
A história seguinte, Ämok”, tem no homem a figura frágil. Um médico alemão decide trabalhar no oriente tropical para recomeçar uma vida condenada na Europa por um envolvimento com uma paciente dominadora. Impelido a fazer um aborto, sua vida desmorona novamente no Oriente. É a história da fraqueza: muito bem narrada, como sempre.
Por fim, “Xadrez”, a história que me levou a comprar o livrinho. Nesta novela, Zweig conta a história de Dr. B, que desafia, algo involutariamente, o campeão mundial –também um idiota autista – a uma partida.
Dr. B nos relata os segredos do envolvimento com o xadrez: a monomania é fruto de uma terrível solidão, imposta por uma vida opressiva e sem saída. Inventa-se um duplo de si mesmo, e divide-se o cérebro em duas partes, de modo a deixar margem para aquilo que não é possível no xadrez: a surpresa, o acaso. Neste sentido, vê-se, de um lado, de que é feito Mirko Czentovic, o campeão (isolamento absoluto, em uma descrição que lembra a feita por Hannah Arendt em “Origens do Totalitarismo), e também, como o intelecto é arte deste isolamento, e não mero foco de resistência. De um lado, o bruto; do outro, o puro iliuminista, a racionalidade totalmente desprovida de circunstância a ponto de inventar suas próprias. E
Claro que, ao final, revela-se que o outro, por mais idiota que seja, é também capaz de oferecer resistência.
Poderia, ainda, traçar alguns denominadores comuns: em primeiro lugar, apesar de todo seu humanismo, Stefan Zweig não deixa de lado um tema tão vienense: para impor os seus próprios limites, o homem age contra si mesmo. A burguesia delimita suas fronteiras em “Medo”; o intelecto delimita as suas em “Xadrez”. Numa, é bem sucedida para continuar fingindo com eficácia; noutra, não.
O narrador, em Zweig, é também interessante Ele adota tanto o onisciente, como faz em “Medo”, como o narrador-personagem. Mas esse narrador-personagem é sempre um espectador privilegiado, é sempre alguém que não agiu e que ouviu contar uma história, ao invés de ter participado dela. É, portanto, parcial.
O que me impressiona é a fluência narrativa. Zweig é story teller dos melhores, e usa bem recursos algo tradicionais para falar de um mundo de “ontem”...

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