Filipe Miguel's Reviews > Os Jogos da Fome

Os Jogos da Fome by Suzanne Collins
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5855795
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Jun 02, 12

bookshelves: science-fiction, suspense, thriller
Read from May 22 to 26, 2012 — I own a copy

Parti para este livro sem conhecer nada do universo de Suzanne Collins. Tirando a informação constante no livro, nada mais sabia. Não vi resumos, criticas, nem sequer o trailer do filme que do livro resultou. Mais não conhecia que a existência de um tal de hype "Hunger Games". Ah, e o cartaz do filme...

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Hábitos irritantes, consequências do marketing - um à parte

Curiosamente o cartaz acabou por dar-me bastante trabalho. Explico porquê. Assumo aqui, desde já, que abomino que troquem as capas originais das obras pelas suas versões cinematográficas. Uma inspiração para cinema, por mais fiel que seja, não é a cópia do seu livro correspondente. É sempre uma adaptação. Bem ou mal conseguida, mas é uma adaptação. Posto isto, percebo que estas alterações obedeçam aos princípios do marketing, mas considero-as, no mínimo, irritantes.

Uma coisa é colocarem uma capa removível por cima da original. Terei todo o gosto em compreender que chama mais a atenção e que poderá potenciar as vendas, terei todo o gosto também em adquirir o livro, retirar esse acessório, rasgá-lo com o carinho merecido, colocá-lo no lixo e ficar com a capa original. Não é este o caso da mais recente (re)edição portuguesa. Só há à venda com a capa que tem o cartaz do filme. A original, evaporou-se.

A muito custo, para os curiosos, consegui encontrar a versão original. Reserva feita no stand da Editorial Presença na Feira do Livro de Lisboa de 2012. Em qualquer outro lado, lamento, mas nem um único exemplar (nem na internet - sites de leilões incluídos, nem nas livrarias habituais).
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Indo virgem, aumentou o impacto?

Como disse, nada sabia sobre o universo de Suzanne Collins e, talvez por isso, o livro tenha tido muito mais força do que esperava. Parto para os hypes sempre de pé atrás e este era sem dúvida um hype de impôr respeito. Apesar da autora escrever marcadamente para uma audiência infanto-juvenil, a verdade é que o livro suplantou idades, géneros, religiões, estratos sociais. Stephen King, Stephenie Meyer e Ken Follett foram dos que assumiram o seu fascínio e curiosidade pela obra. Mas porquê?

Antes de mais, o Jogos da Fome - Volume I não é extraordinário, nem sequer é um conceito novo (quem não se lembra de histórias sobre um futuro em que um regime opressivo está no poder? e para quê pensar no futuro, quando, ainda hoje há regimes destes a vigorar?). As semelhanças com o livro Battle Royale de Koushun Takami são também por demais evidentes, o próprio ambiente recorda um jogo de vídeo chamado Enslaved - Odyssey To The West produzido pela Namco Bandai, que, por sua vez, havia sido inspirado num antigo livro chinês, Journey To The West, de Wu Cheng'en. Assim sendo, é díficil que a palavra novidade seja a reinante na obra.


Arrebatador do princípio ao fim

A história resume-se facilmente: "Num futuro pós-apocalíptico, surge das cinzas do que foi a América do Norte, Panem, uma nova nação governada por um regime totalitário que a partir da megalópole, Capitólio, governa doze Distritos com mão de ferro. Todos os Distritos são obrigados a enviar anualmente dois adolescentes para participar nos Jogos da Fome - um espectáculo sangrento, cujo lema é «matar ou morrer». No final, apenas um destes jovens escapará com vida…".

Há uma heroína, um herói improvável, circunstâncias que permitem que ambos sejam forçados a entrar no jogo, vilões a servir um propósito maior (o grande vilão é obviamente o regime), violência q.b., privações e excessos. Tudo a que uma obra deste género tem direito.

Mas existe também muita dose de inteligência por parte de Suzanne Collins (SC). Todo o livro é escrito na primeira pessoa (nada aconteceu, está a acontecer). Estamos lá. E com este artefacto, ao colocar-se na pele de uma das personagens, Suzanne conseguiu, principalmente duas coisas: ritmo e limitar-nos, enquanto leitores, ao conhecimento do contexto. Sabemos o que a personagem sabe, pensamos o que a personagem pensa. E isso basta para nos sentirmos lá! Não teremos nós de concordar, ainda que relutantemente, com a ideia de que estar atento numa aula de história sobre Panem é irrelevante, quando a prioridade é sobreviver à fome extrema?

Este foi o princípio que Suzanne Collins usou. Tudo surge do ponto de vista de uma personagem. Os odores, os sabores, as texturas, os ruídos, tudo nos chega através dela... E não há tempo para divagações. Porquê? Claro! Porque as divagações não alimentam o estômago.

A força do livro é essa mesma, o ritmo desenfreado, com poucas pausas, a sinceridade das personagens e a forma como Collins nos apresentou um ambiente futurista, mas ao mesmo tempo demasiado familiar.


Mas na arena estão adolescentes

A base dos Jogos da Fome são os tributos. Esses tributos são, nada mais nada menos que, adolescentes provenientes de cada Distrito, que entram na arena em sua representação. Há distritos pobres e ricos. Uns com mais história nos jogos que outros. Uns com mais capacidade para gerar campeões que outros. Contudo, o objectivo é sempre idêntico. Matar e não ser morto, na esperança de ser o último sobrevivente e, assim, conseguir uma vida sem privações. Claro que a entrada nos jogos é, na maioria dos casos, forçada e, analisando friamente toda a competição, concluímos que o grande objectivo é: mostrar que quem manda é o Capitólio, obrigando adolescentes a entrar numa competição violenta.

Toda a competição é um jogo do gato e do rato, força contra agilidade, impulsividade contra planeamento. Há pseudo-paixões que nos chegam sem percebermos se são verdadeiras ou tácticas, frio, calor, fome, sangue, dor... Há também camuflagens perfeitas e ideias díficeis de compreender (paraquedas que caem dos céus não dão de bandeja as posições dos seus receptores?), mas tudo pelos olhos de uma personagem.

Se muitos dos leitores criticaram Suzanne Collins por aspectos que podiam retirar credibilidade à história (utilização de paraquedas numa arena, quando o objectivo é passar despercebido, por exemplo), outros (como eu) tiram-lhe o chapéu por ter colocado os acessórios de lado, as explicações, os porquês que não os imediatos, para segundo plano, pois à luz dos olhos das personagens, o que interessa é que chegou, por exemplo, uma ferramenta de sobrevivência ou foi encontrada uma gruta para passar a noite. À personagem pouco lhe interessa se o material é preto ou branco, se é visível ao longe ou se têm alguma camuflagem para não ser detectado, desde que lhe seja útil, isso basta-lhe.



Regresso ao passado

A linguagem usada em todo o livro é acessível e não constitui qualquer problema. Não acho que a violência seja despropositada, nem a considero exagerada. Tenho de confessar também, que não me chocou ver crianças ou adolescentes na arena, apesar de compreender que o tópico seja sensível.

Parece-me antes que, por outro lado, Collins conseguiu construir um Volume I que é um hino à sobrevivência, enquanto lança a escada para os seguintes. Não sei se vou apreciar ou não o que se segue e, mais uma vez, partirei bastante desconfiado. Principalmente porque, tendo em conta o que temos em mãos, não vejo possibilidade de melhorar (ou até mesmo, continuar sem estragar). Contudo, sinto que devo à autora a continuação da leitura da sua obra.

Suzanne Collins conseguiu criar uma história que parece inocente, mas que, na realidade, nos faz viver uma aventura, conhecer outros mundos, temer e sorrir com as personagens, ver o que elas vêm, sentir o que elas sentem e ansiar pelo passo seguinte.

No fundo, Collins tem o mérito de ter posto milhões de pessoas a ler este seu livro dirigido a um público infanto-juvenil. Tem também o mérito de nos agarrar do princípio ao fim, desde que não vamos carregados de pedras já preparadas para criticar a sua criação.

Com ela voltamos ao nosso tempo de pré-adolescência, às aventuras que vivíamos e áquelas com que sonhávamos. Suzanne Collins leva-nos ao nosso passado, através de uma ideia sua para um improvável, mas possível futuro. Se isso não tem algum mérito...

Nota: 4.5/5.0
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05/23/2012 page 42
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