Rafael Ferreira's Reviews > Festa no Covil

Festa no Covil by Juan Pablo Villalobos
Rate this book
Clear rating

by
8220901
's review
Apr 29, 12

Read from April 15 to 16, 2012

Com pouco mais de seis meses de blog, identifiquei um traço curioso no meu processo de escrita. Eu costumo ter uma dificuldade muito grande de escrever resenhas sobre livros de que gostei. De todas as resenhas que escrevi, as mais fáceis foram a dos livros Liberdade de Jonahtan Franzen e Los días del arcoiris doSkármeta. Exatamente dois livros de que não gostei muito... Não sei exatamente o porquê do fenômeno, mas sei que as coisas funcionam assim...

Digo isso porque tive uma dificuldade enorme de começar a escrever a resenha de Festa no Covil, o romance de estreia do mexicano Juan Pablo Villalobos de que gostei enormemente (neste caso, acompanhando a crítica especializada).

Festa no Covil é uma novela curtinha (são oitenta páginas), escrita em uma prosa extremamente fluida. O livro é narrado em primeira pessoa por Tochtli, uma criança de idade indefinida (mas definitivamente pequeno), filho de um jefe de cartel de drogas mexicano. Tochtli vive preso no “castelo” de seu pai, um complexo fortificado no meio do nada, e seu único contato com o mundo exterior se dá através dos seguranças e capangas de seu pai, de um preceptor, um esquerdista falido e da tevê.

Em compensação por seu isolamento, o pai enche a criança dos presentes mais incríveis. Basta a Tochtli desejar, que tudo lhe é concedido. Seja uma coleção de chapéus ou um hipopótamo pigmeu da Libéria, todas as suas vontades são atendidas. Tochtli só não pode chamar o jefe de pai nem entrar em determinados aposentos do castelo.

Mas Tochtli não é feliz. Preso nessa realidade sufocante, seu grande refúgio são as palavras. Lê o dicionário todos os dias antes de dormir. E são as palavras que aprende que vão dar o tom de sua visão sobre o mundo. Todas as suas experiências são sórdidas, ou nefastas, pulcras ou patéticas, ou ainda, fulminantes. Sua memória é fulminante, seu preceptor é patético, o México é um país nefasto.

Nesse ponto, a forma como o autor constrói a narrativa me encantou particularmente. Lendo Festa no Covil, vejo exatamente o que Herta Müller tentou fazer em Tudo o que tenho levo comigo e, na minha opinião, não conseguiu. As palavras efetivamente são quase um personagem à parte do livro e a sua utilização (ou mesmo sua subversão) tornam o romance interessante. Outro recurso muito bem usado foram os nomes dos personagens. Todos os personagens têm nomes de animais. Disfarçados, o jefe é a cobra cascavel, o filho o coelho. Villalobos entende muito bem que as palavras têm sentido.

Villalobos consegue criar um romance de formação com extremo bom gosto, usando a forma a seu favor e a favor da narrativa. As descobertas de Tochtli e suas aventuras no mundo dos adultos desenham um caráter sendo construído. A criança é moldada pelo pai em um mundo imediatista e violento, que debocha dos “cultos” e dos “maricas”. O autor mostra de forma muito eficiente que inocência e brutalidade são duas faces de uma mesma realidade. A mesma realidade em que uma criança brinca inocentemente com o pai de adivinhar quantos tiros são necessários para transformar uma pessoa em cadáver. A realidade bruta em que a criança diz que os mortos não são pessoas e sim cadáveres.

Também é digna de nota a caracterização do “clima” da narrativa. Em muitos momentos, lembra os primeiros filmes de Robert Rodriguez, com seus bandidos, chapéus, bigodões e toda a caricatura da cultura mexicana da fronteira. Ainda que não seja um livro sobre o narcotráfico que hoje apavora o México, o autor faz um “tributo” à cultura do narcotráfico, tão forte no país. Um tributo crítico, cínico, vanguardista...

Como disse, gostei muito do livro. A edição brasileira foi traduzida pela esposa do autor (que vive no interior de São Paulo). O projeto gráfico da Companhia das Letras é bem bacana, com uma capa que lembra bastante os temas do dia dos mortos, uma festa mexicana tradicional. Altamente recomendado. Outro autor que merece atenção.

Resenha originalmente publicada em http://blogdorcf.blogspot.com.br/2012...
4 likes · likeflag

Sign into Goodreads to see if any of your friends have read Festa no Covil.
sign in »

No comments have been added yet.