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AUTOBIOGRAFIA DE UM ESPANTALHO by Boris Cyrulnik
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Jan 01, 12

bookshelves: psicology
Read from October 21 to December 01, 2011, read count: 1

Matéria:

VIDA NOVA
Neuropsiquiatra e psicanalista, o francês Boris Cyrulnik é um dos maiores especialistas no mundo em resiliência. Com origem na física, o termo está ligado à capacidade de se retomar a vida depois de um grande trauma. Tendo a própria história como referência, ele defende a ideia de que superação só é possível com a descoberta de um sentido e muito afeto.


ENTREVISTA
Por Malu Vergueiro


Perdas, infelicidades, feridas, traumas. Não há vida sem obstáculos. Alguns bem difíceis de serem ultrapassados, outros nem tanto. Para certas pessoas, uma muralha intransponível. Para outras, apenas uma pequena barreira. Diante de qualquer sofrimento, o ser humano tem dois caminhos a seguir: se tornar vítima ou herói de sua própria história. E é aí que entra o termo resiliência, um conceito emprestado da física, que tem como significado o poder que um material tem de retornar ao estado natural depois de passar por uma enorme pressão. No estudo do comportamento humano, é a capacidade de um indivíduo retomar a vida depois de um grande trauma.
Para o neuropsiquiatra e psicanalista francês Boris Cyrulnik, um dos maiores estudiosos do tema no mundo, diretor da Clínica do Apego na Universidade de Toulon e presidente do Observatoire International de la Résilience, depois de um grande sofrimento, de uma catástrofe, perda ou tragédia, a vida pode ser retomada, é verdade, mas jamais será a mesma de antes. E todo o seu conhecimento não vem só de livros, pesquisas e seminários, mas, principalmente, da própria experiência. Parte de uma família judia, aos 6 anos Cyrulnik perdeu os pais e a irmã durante a Segunda Guerra Mundial, em um campo de concentração nazista. A partir daí precisou reaprender a viver. Passou alguns anos em uma fazenda da assistência pública francesa até ir morar com uma tia, que o criou. Por isso, segundo o especialista, resiliência não é uma história de sucesso, mas a briga de uma criança empurrada para a morte que inventa uma estratégia para voltar à vida. "É o desenrolar imprevisível, com soluções surpreendentes", escreve ele em seu último livro, Autobiografia de um Espantalho, recém-lançado aqui no Brasil. Em rápida visita ao país, a convite da editora WMF Martins Fontes - responsável pela publicação - e também pela Casa do Saber - onde deu uma aula concorridíssima –, Boris Cyrulnik conversou com J.P. Em entrevista exclusiva, com sabedoria de sobra, voz doce e ponderada que só os grandes pensadores têm, falou sobre traumas e superação. Sobre o afeto? Um dos maiores fatores de resiliência. Sentido? Sem um, seja ele qual for, impossível seguir adiante. O tempo? Sim, ele cura feridas.


J.P: Para a física, resiliência é a capacidade de um material voltar ao seu estado normal depois de ter sofrido tensão. Qual o significado desse termo no
comportamento humano?

BORIS CYRULNIK: Resiliência vem do latim resilio, que significa ressaltar. No sentido de fazer um salto. O metal, depois de sofrer uma tensão, se deforma. E
quando retoma a uma forma, nunca é a original. Depois de uma catástrofe, por exemplo, a vida é retomada, mas não é a mesma de antes. É uma nova vida. A
psicologia toma essa palavra como uma metáfora. Depressão, por exemplo, quer dizer estar privado da pressão. Também é uma metáfora ligada à física. Quando se fala em energia psíquica, a origem está na energia elétrica. Várias palavras da psicologia vêm da física e da química. O bom das metáforas é que nos ajudam a pensar. O lado negativo é que podem nos levar a achar que o espírito psíquico é igual ao material. O que não é verdade.


J.P: Depois de um trauma, o ser humano tem dois caminhos: se tornar vitima ou o herói de sua própria história. O que fazer para seguir com a segunda opção?

BC: Até pouco tempo achávamos que depois de um trauma o indivíduo estava perdido. E para abandonar essa ideia, entramos então no conceito da resiliência. Emmy Werner, uma americana, foi quem propôs essa metáfora. No Havaí, ela trabalhou cuidando de 700 crianças de rua. Resolveu revê-las 30 anos depois e constatou que 72% delas tinham sido massacradas, mortas ou sofreram sérios problemas mentais. Mas, para seu espanto, 28% tinham aprendido a ler e escrever, formado uma família e tinham uma profissão. Ela então concluiu que essas pessoas tinham uma lição a nos dar. Ou seja, o ferimento existe, mas é possível aprender a recomeçar uma outra vida. E quais são os fatores que levaram essas pessoas a recomeçar? Finalmente eu respondo a sua pergunta. Tudo depende do estado de desenvolvimento do indivíduo e do contexto em que está inserido. O mesmo trauma pode provocar destinos diferentes.


J.P: É mais fácil, então, para uma criança do que para um adulto superar um trauma?

BC: Depende da forma e do significado do trauma. Para um bebê, além da necessidade de sustentação afetiva, há também a necessidade física porque senão ele morre. Mas o adulto também precisa de sustentação afetiva. Se ele está privado de afeto, aumenta sua mentalização sobre o trauma. Se ele pode dividir, ele então encontrará um fator de resiliência. Se está sozinho, pode cair em depressão.


J.P: Então o afeto é fator fundamental no processo de resiliência, certo?

BC: As palavras-chave da resiliência são ação, afeto e mentalização. Fizemos estudos de situações de catástrofes naturais como inundação, incêndio, terremoto e
nos demos conta que as pessoas envolvidas diretamente com a tragédia não são as mais traumatizadas. Mas, sim, aquelas que acabam ficando abandonadas por estar mais distantes, fora do epicentro da tragédia. São as que ajudaram no socorro, que cuidaram dos feridos, que cozinharam, que preencheram papéis. Essas sim são as mais atingidas. Os sobreviventes sofreram feridas, mas sentem menos a síndrome pós-traumática. Quando alguém tem um luto na família, passa por uma grande tristeza ou vive uma perda, o que costumamos fazer? Pegamos essa pessoa pelos braços e apertamos forte. Todo mundo faz isso. Os brasileiros, então, dez vezes mais. Se me sinto apoiado, eu choro, eu sinto, no entanto sofro menos porque posso contar com alguém. Quanto ao terceiro fator, que é a mentalização, é preciso compreender o que aconteceu. Para que eu possa me tornar senhor da desgraça que me aconteceu, sou obrigado a compreender, encontrar um motivo, uma justificativa.


J.P: Compreender? E para aquilo que não há explicação?

BC: Fabricamos uma explicação. Por meio dos mitos, do teatro, seja lá o que for. O teatro, por exemplo, nos permite dizer aquilo que não se tem força para dizer. Ou então escutar aquilo que não se tem coragem de ouvir. A arte em geral tem esse poder. Não posso dizer o que me aconteceu porque emocionalmente é muito difícil para mim. Não posso ouvir o que é insuportável escutar. Se estou só, não tenho nenhuma possibilidade de resiliência. Mas, se escrevo um romance, faço um filme ou componho uma canção, posso falar de mim na terceira pessoa.


J.P: Em seu último livro, que acaba de ser lançado, Autobiografia de um Espantalho, o senhor conta muitos casos e dá exemplos de algumas histórias, todas na terceira pessoa. Por acaso está contando a sua história para você mesmo?

BC: Sou psicólogo e psiquiatra por causa da minha infância. Se fosse uma pessoa equilibrada, seria marceneiro como meu pai. Fui obrigado a entender o que aconteceu comigo. Passei a ler como louco e estudei em condições muito difíceis até compreender. Minha compreensão pode até ser uma ilusão, mas isso não tem
importância. É uma forma de representação para aquilo que não pode ser representado, que é o trauma. Ou seja, de certa forma me torno um pouco senhor do
meu destino. Retomei minha dignidade e liberdade.


J.P: O senhor acha então que conseguiu compreender o holocausto e o fato de seus pais terem sido mortos em um campo de concentração?

BC: Quando eu era criança, evitei pensar nisso. Em psicanálise, isso se chama denegação. É um mecanismo protetor que impede a resiliência. Protege porque permite sofrer menos, mas te impede de enfrentar o problema. É um mecanismo de legítima defesa, mas que custa muito caro sob o plano psicológico. Elie Wiesel, prêmio Nobel da Paz em 1986, que esteve no campo de concentração quando tinha 14 anos, disse ter sido testemunha de uma verdadeira
monstruosidade. Mas dizia ser impossível falar sobre o assunto. Por outro lado, achava também que não poderia deixar que sua família fosse morta como se nada
tivesse acontecido. Ele então se tornou jornalista e contou suas experiências em forma de romance.


J.P: No livro o senhor fala que uma tragédia provocada pela natureza gera menos distúrbios traumáticos do que aquela provocada pelo homem? Por que isso?

BC: Porque perdoamos a natureza. Porque a natureza é inocente. O ser humano que traumatiza teve a intenção. Catástrofes destroem uma só vez. O homem destrói duas: porque destruiu e porque teve a intenção.


J.P: A religião, seja ela qual for, mas no sentido de dar certas respostas, é um fator de resiliência?

BC: Para algumas pessoas, sim. Mas não para todo mundo. As teorias de relações, métodos experimentais que permitem estudar a questão do elo afetivo, hoje são mais importantes e mais estudadas. As pessoas que se servem da religião como fator de resiliência vão à igreja, ao templo ou à sinagoga e lá encontram afeto, amparo, ajuda social e o sentido para o trauma. A religião é um fator de resiliência, assim como a arte e a filosofia. E se o sentido estiver em uma associação, no teatro, no consultório de um psicólogo ou na literatura, tudo bem...


J.P: Além da busca do afeto e do sentido, o que mais é possível fazer na prática para superar um trauma? Buscar a ajuda de profissional, por exemplo?

BC: Algumas pessoas podem transformar o psicanalista ou o terapeuta em tutor de resiliência. Ou o professor de teatro, um amigo, a filosofia ... Pode ser um ensaio de psicologia, um filme, um romance. A função da arte é o que se chama em psicologia de "um terceiro". O que eu não consigo dizer para mim, posso falar ao psicanalista, por exemplo.


J.P: Hoje vivemos em uma sociedade em que há um remédio para qualquer dor. A sensação é que não se permite não estar feliz. Qual a importância do sofrimento?

BC: O sofrimento faz parte da condição humana. E ninguém pode pretender escapar disso. Em nossa cultura moderna, ocidental e tecnológica, dizem que uma molécula química pode diminuir o sofrimento. O que é verdade. Mas o verdadeiro remédio é o afeto e o sentido. A base da segurança está à nossa volta, na figura da mãe, do pai, dos irmãos, do marido, da esposa, dos filhos e amigos. E é aí que se pode retomar o dinamismo: sei aonde quero ir; se tenho um projeto de existência. Para resolver o problema é preciso encontrar alguém que se ama e ter um projeto. Isso substitui todos os remédios.


J.P: No livro o senhor fala que, segundo pesquisas e números, o sofrimento e o estado traumático vão diminuindo com o tempo. O tempo tem mesmo o poder de curar as feridas?

BC: O trauma diminui com o tempo, mas não é o tempo que faz diminuir o trauma. Com o passar dos dias temos tempo para estabelecer relações afetivas e para tentar compreender o que aconteceu. E é esse trabalho de mentalização e a procura da segurança afetiva que faz com que o trauma passe.


"Quando alguém tem um luto na família, passa por uma grande tristeza ou vive uma perda, o que costumamos fazer? Pegamos essa pessoa pelos braços e apertamos forte. Todo mundo faz isso. Os brasileiros, então, dez vezes mais."

"O sofrimento faz parte da condição humana. E ninguém pode pretender escapar disso. Em nossa cultura moderna, ocidental e tecnológica, dizem que uma molécula química pode diminuir o sofrimento. É verdade. Mas o verdadeiro remédio é o afeto e o sentido."
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