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Fome by Elise Blackwell
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4076525
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Sep 09, 2010

it was amazing

“Aqueles que se afogam nunca mudam os factos, mas aqueles que sobrevivem ao mar nos pulmões devem enviar as suas histórias em palavras, palavras como pequenos barcos de casco furado, através da distância, do frio, e das correntes de água.”
Sobrevivente do cerco alemão a Leninegrado durante a Segunda Guerra, atrocidade que veio a ceifar mais de um milhão de vidas, um botânico cuja identidade não é revelada recorda a agonia vivida nesse período. Tal como a sua mulher, trabalhou no Instituto de Pesquisa da Indústria de Plantas, que comporta uma das maiores colecções de sementes a nível mundial, em grande parte devido aos esforços do seu director, Nikolai Vavilov. Apesar das privações, a preservação desses milhares de espécies tornou-se na missão dos cientistas do instituto, que assumem o compromisso de colocar a protecção das plantas e sementes acima da sua própria saúde.

“Mas não podia suportar a dor que existia entre mim e a morte. Era essa fome cinzenta, e não a própria morte, que temia, que evitava a custo e a toda a hora. Como os políticos mais inteligentes sabem e repetem, os ideais nada são para o homem que se senta de mesa vazia.”
A fome, resultante da continuidade do cerco nazi, instala-se na cidade e apresenta-se como um importante factor de clivagem moral, visível entre aqueles que se sacrificam, como os cientistas do instituto, e os que cedem aos instintos de sobrevivência pondo de parte quaisquer considerações éticas, como é o caso do narrador. É este narrador atípico, dilacerado pelas suas paixões, que nos proporciona uma perspectiva da decadência humana que não seria possível observar através do heroísmo dos seus companheiros.

“Como sempre, o meu arrependimento foi instantâneo. Não me refiro à culpa do roubo e sobrevivência, que era constante, mas o simples arrependimento por ter despertado a terrível fome que conseguira finalmente entorpecer.
Disse a mim próprio que a dor era o preço da vida; a sua ausência era o passo para a morte.”
A rápida deterioração das condições de sobrevivência é magistralmente intercalada com situações contrastantes, desde expedições ao estrangeiro para recolher sementes raras ao paralelo efectuado com os jardins suspensos da Babilónia, desde o desespero à evocação do prazer de comer. A analogia estabelecida com a Babilónia serve também para relembrar a vulnerabilidade da obra do homem, por mais valiosa ou complexa que seja, e, especialmente, em como é o próprio homem a causa da ruína daquilo que ele próprio construiu.
“Desvario laborioso e empobrecedor é o de compor vastos livros; o de espraiar por quinhentas páginas uma ideia cuja perfeita exposição oral cabe em poucos minutos.”

Jorge Luis Borges

Em Fome, Elise Blackwell consegue, de modo elegante e conciso, apresentar as consequências da ausência de disciplina moral. Através da perfeita justaposição de opostos, sem divagações desnecessárias ou desperdício de palavras, somos confrontados com a forma como o móbil último da natureza humana - a auto-preservação – se impõe na nossa conduta.

“Como sempre, o meu arrependimento foi instantâneo. Não me refiro à culpa do roubo e sobrevivência, que era constante, mas o simples arrependimento por ter despertado a terrível fome que conseguira finalmente entorpecer.
Disse a mim próprio que a dor era o preço da vida; a sua ausência era o passo para a morte.”
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